Cultura Corporativa, do real ao virtual em 20 anos

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Cultura Corporativa, do real ao virtual em 20 anos

Do monitoramento de mensagens à quebra de sigilo, a relação de funcionários com o mundo digital vem tirando o sono de empresários e gestores.

Do monitoramento na troca de mensagens em tempo real à quebra de sigilo, a relação dos funcionários com o mundo digital vem tirando o sono de muitos empresários e gestores.


[16.07.2021]


Por Alexandre Adoglio, CMO na Sonica e empreendedor digital.
Escreve sobre Cultura Digital para o SC Inova  

Idos de 2012, os funcionários da companhia de seguros Aviva de Londres recebem em certa manhã um e-mail constrangedor: “Gostaríamos de agradecer a você pelo trabalho feito, agradecer por tudo e desejar o que há de melhor para o seu futuro”. Sim, todos os 1.300 funcionários, em países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha e outros, foram demitidos por e-mail ao mesmo tempo, devido a um pequeno engano do responsável pelos Recursos Humanos. Mesmo a empresa tendo corrigido o problema em 25 minutos a tensão ficou clara e mostrou como o digital viria a impactar a relação entre pessoas, carreiras e empresas.

Uma das primeiras coisas que todo novo funcionário corporativo recebe é um e-mail da firma. Aquele arroba que precede a marca/produto/empresa, logo após o nome da pessoa, ou colaborador como se diz na modernidade. Mas fato é que, de simples ferramenta de comunicação interna, o e-mail corporativo passou a ser utilizado de outras formas que não só na rotina do trabalho, mas também como arquivo de conversas, instrumento de flerte e também um arma perigosa na mão dos mal intencionados.

Casos como funcionários vazando informações para concorrência, destinatário errado e problemas de segurança em clicks suspeitos levaram a toda uma nova compilação de regras internas para política de uso, incluindo toda uma legislação voltada a regulamentar a forma como se deve proceder em caso de problemas. Desde a possibilidade de monitoramento em tempo real da troca de mensagens até a quebra de sigilo das mensagens pela justiça, atualmente a relação dos funcionários com o mundo digital vem tirando o sono de muitos empresários e gestores por aí.

GAMIFICATION DO RH

Um dos principais benefícios de gerenciar o time pelo digital é o poder de imputar e monitorar métricas. Desde o sistema de CRM até as parrudas plataformas de RH, podemos a qualquer momento medir a performance dos colaboradores, constatando com eficácia as entregas e também a qualidade de relacionamento entre os membros dos times.

Os badges da Salesforce: mais do que uma simples certificação, eles coroam uma estratégia de criação e relacionamento de comunidade.

Na Salesforce, por exemplo, qualificam-se os colaboradores e parceiros por badges (emblemas) de acordo com sua performance, relacionamento e dedicação à companhia. Mais do que uma simples certificação, esses badges coroam uma estratégia de criação e relacionamento de comunidade que colocam a SalesForce como um dos maiores players de mercado e com a maior taxa de engajamento do público interno em suas redes sociais.

Na mesma pegada temos o Feedz, de Florianópolis, plataforma para engajamento e desempenho de colaboradores, que une gestão de desempenho integrada com pesquisa de clima interno. Ou ainda a Pulses, de Itajaí, uma people analytics que monitora em tempo real a experiência dos colaboradores e emite dados preditivos para tomada de decisão. Mercado tão promissor que no último ano observamos um movimento estratégico da Enlizt, plataforma manezinha de recrutamento e seleção, que comprou duas soluções para integrar seu portfólio: SinSalarial, especializada em pesquisas de cargos e salários, e a Sinergia Gestão de Pessoas, que realiza gestão estratégica de RH.

Já o Glassdoor, que adquiriu o brazuca LoveMondays, se comporta de maneira diferente, com um banco de vagas e currículos atrelado a um ótimo sistema de ranqueamento no qual colaboradores e ex-funcionários da empresa podem mostrar todo seu entusiasmo, ou não, pela empresa. Já é um clássico viral: The 5 Most Hilarious Glassdoor Reviews of Silicon Valley Employers.

“Worst job ever”: Depoimentos desmontam alguns dos “great places to work”

PLANTÃO LINKEDINHO

E falando em social media, temos esta “nova ferramenta” invadindo de vez o mundo corporativo, desde os primeiros passos do Orkut. Em iniciativas como Google Workspace (ex G Suite) e Facebook Workplace, as ferramentas do Vale do Silício empregam uma série de atividades para suporte e apoio às nossas atividades profissionais. Tendo como seu principal protagonista o LinkedIn, é através das redes sociais que muitos RHs consomem skills alheios e também prospectam entre si o preenchimento das vagas em aberto.

Fundado antes da primeira bolha da internet, o LinkedIn foi comprado pela Microsoft em 2016 como uma promessa (cumprida) da maior rede social corporativa do mundo, hoje conta com mais de 600 millhões de usuários (isso mesmo, 600.000.000), sendo que 40% destes o acessam diariamente, sendo considerado pelo Hubspot 277% mais eficaz na geração de leads do que o Facebook e o Twitter. Tão presente em nosso dia a dia corporativo que recentemente ganhou seu próprio jornal de notícias, o Plantão Linkedinho, bem humorado compilado de “news da rede” criado pela desenvolvedora web Tatiany Lukrafka.

Dos 600 milhões de usuários globais do LinkedIn, 40% acessam a rede social profissional todos os dias.

PÕE NO TRELLO

Mesmo tendo as melhores ferramentas de gestão e compartilhamento, por vezes o digital só nos é confiável quando podemos integrá-lo plenamente a nossa rotina de trabalho. Soluções como Monday e Trello, dentre outras, tornam nossa vida muito mais fácil e dinâmica. Plataformas como Discord e Slack se tornaram fundamentais para conexão de times e projetos, além das muitas opções de ferramentas para reuniões online como Zoom, Met, Whereby e Teams, este último remanescente do sepultamento do Skype.

E derivando dessa nova cultura corporativa, conceitos inovadores de gestão em plataformas on-line de operação, temos o surgimento de um novo modelo de vida corporativa, quase uma contracultura de tudo o que os acadêmicos de administração nos ensinavam anos atrás. Observando esta mudança na comportamento, o engenheiro de software Manu Cornet compôs algumas tirinhas de quadrinhos ilustrando sua vida profissional no Google. 

“Primeiro, houve ‘falhas no país das maravilhas’. Depois, houve ‘desilusão’”, diz ele em tom provocativo nos quadrinhos que desenhou por 11 anos atuando no gigante do Vale do Silício sobre questões como ética, velocidade na tomada de decisões e contratos secretos com países inimigos como a China, por exemplo.

A cultura corporativa das big techs em alguns rabiscos.

Recém contratado pelo Twitter, Cornet publicava os quadrinhos no quadro de mensagens dos memes da empresa, e os funcionários também se inscreviam para receber seus quadrinhos em sua caixa de entrada de email. Ele diz que ao longo dos anos cerca de 10% dos funcionários assinaram esta newsletter, com o número de leitores crescendo junto com a empresa; Cornet diz que sua base de assinantes finalmente cresceu para cerca de 13 ou 14 mil. A certa altura, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, até mandou imprimir uma das histórias em quadrinhos de Cornet afixada na porta de seu escritório.

VIDA NUM FUNIL

E com esta profusão de possibilidades acabamos por olhar nossa vida profissional sob uma nova ótica, valorizando mais nosso tempo focado no trabalho e em como podemos otimizá-lo em detrimento da nossa qualidade de vida. O conceito Lean Startup nasceu baseado na filosofia do lean manufacturing, que defende a criação de protótipos rápidos, projetados para validar suposições de mercado, e usa feedback dos clientes para desenvolvê-los muito mais rapidamente do que através de práticas de desenvolvimento de mercado tradicionais.

Oriundo do setor de tecnologia, o “pensamento enxuto” do Lean Startup se integra a outras metodologias, como Scrum e Kanban, apoiando-se em ferramentas e plataformas que possibilitam a automatização de processos ponta a ponta, reduzindo desperdícios e acelerando a performance.

Como no caso do PipeRun, presente há 5 anos no mercado, inicialmente atuando como um CRM padrão para cadência de vendas e hoje sendo implantado para gestão de etapas e funis em outras áreas como Customer Success e Recursos Humanos. Já existem cases da plataforma em que todo processo de contratação e gestão de pessoas se dá através de um único funil do sistema.

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DEMISSÃO VIRTUAL

Colaborando para toda essa panaceia digital, temos o mais imoderado uso do online para aquele último momento de vida do colaborador dentro de uma empresa. Já não se é tão estranho o relacionamento próximo através das ferramentas online, ainda mais em tempos de trabalho remoto pandêmico. Porém se registrou um aumento do uso da tecnologia para demissões nos últimos meses, impactando a forma como este momento delicado deve ser tratado. 

Muitas empresas de renome se prontificam a tratar os demissionários de uma forma bem humana, considerando até os feedbacks deste ato como uma forma de desenvolvimento pessoal para todos envolvidos. Já algumas outras companhias tratam do assunto de forma atabalhoada e até insensível, disparando um simples e-mail como vimos no início do artigo ou mesmo enviando uma mensagem pelo WhatsApp de forma fria e direta. Claro que essa forma de realizar a despedida gera uma série de lacunas, próprias para que o funcionário tome medidas cabíveis contra o patrão coração de pedra.

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