[Cultura Digital] Pode uma News ser realmente Fake?

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[Cultura Digital] Pode uma News ser realmente Fake?

A prática das fake news se traduz como o maior entrave para uma sociedade digital mais saudável e próspera para todos.


[28.08.2020]

Por Alexandre Adoglio*

No começo de 2017 um novo restaurante despontava como uma das maiores promessas no cenário gastronômico de Londres, despertando a cobiça de connoisseurs mundo afora. Em uma série de avaliações positivas no TripAdvisor, O Barracão em Dulwich começou a consagrar-se como um dos pontos altos da estação, recebendo críticas da imprensa especializada e, inclusive, inúmeras solicitações de reserva e pedidos de parceria. Em pouco tempo o restaurante estabeleceu o período de espera em seis semanas e atingiu o topo do ranking como o melhor restaurante de Londres.

Um detalhe: O Barracão de Dulwich nunca existiu.

Criado pelo jornalista inglês Oobah Butler como experiência social e forma de protesto, o restaurante na verdade foi gerado através de uma série de postagens positivas fakes no site de viagens, como fotos produzidas no quintal do barracão onde Ooobah morava. Neste artigo da Vice ele te ensina a trollagem, que culminou numa desastrosa noite de inauguração.

Mas muito mais do que um simples protesto contra fake news, o caso nos mostra o quão deficitário nosso ecossistema digital é em relação à verdade. Pode realmente isto ser um espelho da nossa realidade, como seres que mentem o tempo todo, ou uma característica indelével dos meios online?

O gaiato Oobah Butler, jornalista inglês que, como forma de protesto e experiência social, fez sucesso com “o melhor restaurante de Londres”, que sequer existiu.

EU LI ISSO NA INTERNET

A grande questão é de curadoria, pois nos primórdios nossa base de compartilhamento de informações era verbal e pessoal, transformando-se ao longo dos séculos para os meios de comunicação off e depois on, culminando na atual www que temos hoje.

Em um levantamento realizado em 2018 nos EUA observou-se que praticamente tudo que roda na economia digital é gerada por bots ou inventado por humanos. De Analytics falso à tráfego falso, conteúdo falso, identidades falsas, empresas falsas e política falsa, vivemos praticamente num simulador da verdade, em que maior parte do que assistimos, lemos e ouvimos não passa de um simulacro que nos impele para direções conflitantes da verdade. 

Muito embora possamos nos defender consultando regularmente as fontes de informação que consumimos, como uma lista de sites falsos ou simplesmente lendo o autor e sua biografia naquele artigo safado que você quer compartilhar com os amigos no WhatsApp.

E também temos as próprias plataformas enfrentando o problema, como o Facebook com seu programa de combate a fake news e campanha de alerta ao usuário, além é claro das inusitadas ações que embarcam no tema, como Skol e Kitano.

DESINFODEMIA 

Este é um termo definido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como “desinformação primordial sobre a doença Covid-19”. O problema se torna maior quando envolvemos questões vitais na divulgação de informações falsas, como vem ocorrendo em decorrência da pandemia do novo coronavírus. Tanto que a Fiocruz lançou um aplicativo para combater a disseminação de fake news sobre o assunto, coletando as informações que estão sendo disponibilizadas para a população. 

Como resultado desta análise feita em abril de 2020 – e para espanto dos pesquisadores – 65% dos conteúdos coletados ensinava métodos caseiros de prevenção e cerca de 20% formas de cura definitiva da doença. Embora esta iniciativa não se limite somente ao coronavírus, mostra o quanto a exposição de conteúdos inadequados pode interferir no julgamento e decisão das pessoas.

PRÊMIO “AS PIORES FAKE NEWS DO ANO”

Os casos de informações falsas tiveram tanta repercussão nos últimos anos que surgiu até o Prêmio “Foolitzer”, para as piores fake news do ano.  Criada pelo site E-Farsas e pela agência Leo Burnett, o prêmio é uma antítese da famosa premiação Pulitzer, que homenageia as melhores matérias jornalísticas do mundo. Dos vencedores de 2019 podemos destacar “Adolescente virgem engravidou ao tomar vacina contra febre-amarela”, eleita a Grande Fake News do ano, liderando outras categorias como, Política, Saúde, Entretenimento, Esporte e Conspiração.

Referência na pesquisa sobre as farsas que circulam pela internet, o E-Farsas nasceu em 2002, sendo mantido pelo ex-pedreiro e atualmente analista de sistemas Gilmar Lopes, e conta com uma média de 40 mil visitantes por dia, pesquisando o que circula na internet por aí.

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MANIPULAÇÃO EM MASSA

No campo político, temos a maior concentração de fake news geradas, por se considerar esta uma nova forma de fazer campanha. Embora dificilmente seja um fenômeno novo, a natureza global do ambiente de informação baseado na web permite que fornecedores de todos os tipos de falsidades e desinformação tenham um impacto internacional. Como resultado, falamos de notícias falsas e seu impacto não só nos Estados Unidos, mas também na França, Itália, Alemanha e Brasil.

Já é do anedotário popular as aparições dos figuras políticos por aqui, como kit gay, confisco de poupança, agressão familiar e a famigerada mamadeira de piroca. A despeito de toda comicidade que possa existir, é fato o impacto negativo social quando uma mentira contada mil vezes pode tornar-se uma verdade. Não se julga aqui a veracidade do tal gabinete do ódio ou mesmo dos blogueiros coordenados em rede para apoiar ou denegrir este ou aquele lado da balança político-partidária.

Fato é que a prática de fake news se traduz como o maior entrave para uma sociedade digital mais saudável e próspera para todos.


* ALEXANDRE ADOGLIO é CMO na Sonica e empreendedor digital.
Escreve semanalmente sobre Cultura Digital para o SC Inova.


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