Cultura de startup na construção civil? A Dimas abraçou a inovação com base em dados e design thinking

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Cultura de startup na construção civil? A Dimas abraçou a inovação com base em dados e design thinking

“Invertemos a matriz do setor: agora, primeiro encontramos o cliente e depois entregamos o imóvel”, conta o Diretor de Operações, Fabrício Schveitzer. / Foto: Divulgação Dimas

“Invertemos a matriz do setor: agora, primeiro encontramos o cliente e depois entregamos o imóvel”, conta o Diretor de Operações, Fabrício Schveitzer. / Foto: Divulgação Dimas

 

O setor de construção civil ocupa o desconfortável penúltimo lugar no índice de adoção de novas tecnologias e processos de inovação, segundo estudo feito pela Harvard Business Review. A capilaridade do segmento ajuda a entender porque é tão difícil levar inovação de uma ponta a outra da cadeia produtiva: da compra do terreno à definição do projeto de engenharia, construção e comercialização, são inúmeros mercados e profissionais distintos que participam em diferentes etapas de um mesmo produto.

Encarar o quebra-cabeça da inovação para a construção civil foi o desafio que o atual Diretor de Operações da Dimas Construções, Fabrício Schveitzer, tem encarado diariamente nos últimos anos. “Há duas grandes barreiras para mudar este mercado: uma está na forma de conceber projetos e produzir. A outra está no próprio consumidor – o brasileiro, em geral, é um grande comprador de tijolo. Há uma dificuldade enorme em mudar o comportamento da construção”, resume, citando a falta de uma cultura de dados para embasar novos projetos e também na hora da compra.

Há 18 anos no Grupo Dimas – que atua no setor há mais de três décadas e também inclui concessionárias de automóveis – Fabrício deixou a empresa por um período e foi empreender na área de tecnologia, desenvolvendo um software para a área jurídica. A partir da experiência neste novo mercado, entendeu que inovação em processos,  prototipação, design thinking e metodologias ágeis seriam uma resposta para repensar o setor da construção civil.

Há três anos, ao voltar para a incorporadora, levou a cultura de startup debaixo do braço. “A grande virada começou há um ano e meio”, explica. “Investimos na mudança de cultura e de metodologias – existem muitas formas diferentes de abordar problemas, tem é que abrir a cabeça. Hoje, todos os 40 colaboradores da empresa sabem o que é Scrum (metodologia para gerenciamento de projetos) e se envolvem, até o mestre de obras. E foi uma mudança muito bem aceita. As pessoas são muito mais digitais do que a gente imagina, basta dar oportunidade e capacitar”.

Para ele, três fatores foram fundamentais para a ideia não ter morrido na praia: a dedicação pessoal ao projeto em tempo e energia, para que todos entendessem o propósito e a necessidade de ser humilde e servir ao outro; o fato de estarem em Florianópolis – “você faz um evento na Softplan, na ACATE, traz especialistas para falar de tendências e tecnologia.. fica fácil mostrar o resultado”; e a resiliência na comunicação: “você tem que ser honesto, falar o que vai mudar e o porquê, repetir esse discurso por mais de um ano para que todos entendam e acreditem naquilo que queríamos fazer”.

Assim, a partir de ferramentas visuais e interativas, como design thinking, e uso intensivo de dados, a lógica dos projetos começou a mudar: “nós invertemos a matriz tradicional desse mercado: primeiro achamos o cliente e depois entregamos o apartamento”. Ele se refere a um projeto nascido já sob o signo do big data, um empreendimento de uso misto (comercial e residencial) em Florianópolis que será lançado em março de 2019. Ao unir dados de localização, perfil de usuários, potencial de compra e estratégias de marketing digital, a empresa entendeu que seus potenciais  clientes estavam concentrados numa determinada parte da cidade, otimizando assim os recursos para comercialização.

“Havia uma visão no mercado imobiliários que os ‘estúdios’ vendiam melhor do que os apartamentos convencionais de um dormitório. Antes de decidir o projeto, usamos uma grande variedade de fontes e dados e vimos o contrário, e a partir disso definimos o produto não em cima de percepção mas de informação. Os ciclos da construção civil costumam ser muito longos, mas neste caso nós dedicamos quatro meses para estudos e projeto e outros quatro meses para vendas. Assim, entendendo previamente o que o cliente quer, estamos comercializando de maneira mais rápida e com menos esforço de marketing. O uso de dados e de design thinking é o nosso motor de inovação”, destaca Fabrício.

No mês passado, a empresa organizou o Innovation Day, um encontro dos colaboradores no Impact Hub da Pedra Branca para conhecer e ouvir tendências de mercado, como o cenário das construtechs, startups que oferecem soluções inovadoras para o setor imobiliário e da construção. O evento foi financiado com recursos provenientes da venda de resíduos produzidos nos canteiros de obras da empresa.

Equipe da Dimas Construções durante o Innovation Day, iniciativa interna bancada pela venda de resíduos produzidos nos canteiros de obras. / Foto: Divulgação Dimas

APROXIMAÇÃO COM O SETOR DE TI

O tempo em que Fabrício ficou fora da construção civil coincidiu com a crise econômica que derrubou o setor no Brasil – só em 2015, o mercado recuou 9%. “Se continuássemos trabalhando da maneira convencional, estaríamos acabados”, reflete. Nesse período, buscou referências em alguns dos maiores polos de inovação dos EUA (Boston e San Francisco) e se aproximou da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), participando de eventos e iniciativas como a Vertical Construtech.

Essa aproximação com o setor de tecnologia rendeu projetos, como o ACATE Downtown, empreendimento no centro de Florianópolis construído pela Dimas, que será inaugurado no final de novembro e foi credenciado como um dos Centros de Inovação que serão gerenciados pela entidade na região – os outros são o ACATE Primavera, na SC-401, o Acate Sapiens, no norte da Ilha, e o SoHo, no continente.

Como visão de futuro, Fabrício enxerga que o horizonte é se tornar uma “construtora self service”, oferecendo serviços sem depender apenas de atendimento pessoal, usando bots para serviços simples (envio de planta do imóvel, segunda via, extrato para imposto de renda, acompanhamento de saldo devedor etc.) e mantendo o olho nas novas tecnologias e tendências que vão surgir.

“O desafio é saber como o mercado vai se sustentar nos próximos anos. Quem vai parar de pé? Parte da população mais jovem, por exemplo, não parece tão interessada em comprar imóveis, como era comum em outras gerações. Esse ciclo não é imediato no Brasil, mas é preciso estar preparado”.

A conexão com startups, o uso intensivo de dados e a fidelidade ao pensamento ágil são a aposta para manter o interesse na empresa pela inovação, resume Fabrício: “o objetivo é sermos os melhores na entrega de serviço, isto é, ser simples, desapegado e ágil”.

Reportagem: Fabrício Rodrigues, scinova@scinova.com.br