Os 5 anos da Endeavor em SC: “não ensinamos negócios, nós ajudamos o empreendedor a ficar sólido”

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Os 5 anos da Endeavor em SC: “não ensinamos negócios, nós ajudamos o empreendedor a ficar sólido”

Em pouco mais de meia década, Santa Catarina já representa 11% do total de empresas ligadas à instituição no país. O foco agora é encontrar e ajudar “scale-ups” a superar os desafios do crescimento

Em pouco mais de meia década, Santa Catarina já representa 11% do total de empresas ligadas à instituição no país. O foco agora é encontrar e ajudar “scale-ups” a superar os desafios do crescimento.

O termo “empreendedorismo” ainda era pouco comum no ambiente econômico do Brasil quando uma ONG internacional de fomento a negócios, a Endeavor, aportou no país no começo dos anos 2000.

Disseminar o empreendedorismo (assim como outras instituições já faziam, como o Sebrae e a Junior Achievement) se tornou um dos principais propósitos da entidade ao longo dos primeiros anos no país . Em Santa Catarina, encontrou um ambiente fértil para fincar sua bandeira – em pouco mais de cinco anos de atuação, o estado representa 11% de todas as empresas ligadas à instituição no país: neste período 96 empresas passaram por programas da Endeavor em SC, das quais 80 são do setor de tecnologia.

E foi justamente o ambiente promissor de TI no estado que motivou a Endeavor a fazer uma visita ao ecossistema local, no início de 2013. Quem recepcionou a equipe que aterrissou em Florianópolis e montou uma agenda por universidades, centros de inovação e grandes empresas locais foi Marcos Mueller, que atuava à época na gestora de venture capital Cventures, ligada à Fundação Certi.

A visita empolgou a Endeavor, que decidiu montar um escritório na cidade para apoiar novos empreendedores em Santa Catarina. Só faltava o coordenador responsável para fomentar essa rede no estado e agregar também mentores e “embaixadores”, nomes reconhecidos do mercado que ajudariam a fortalecer a presença da entidade na região. O escolhido acabou sendo o próprio Marcos, que já tinha uma rede ativa com incubadoras, empreendedores e programas de apoio a startups, como o Sinapse da Inovação.

“Na época eu fui surpreendido, sempre admirei muito a Endeavor e era um apaixonado por empreendedorismo. Bem naquele momento a Cventures havia captado um fundo de capital de risco, mas não consegui dizer não ao convite. Foram dois anos bem intensos”, recorda Marcos Mueller, hoje CEO da aceleradora Darwin Startups, com operação em Florianópolis e São Paulo.  

A intensidade se traduziu na realização de eventos e em inúmeros contatos com empreendedores, mentores e grandes nomes da indústria, convidados para serem os embaixadores – os primeiros da rede em SC foram pesos pesados como Sonia Hess (Dudalina), Valério Gomes (grupo Pedra Branca) e Guilherme Weege (Malwee).

Desde o início, ficou evidente o peso das empresas de tecnologia emergentes poderiam ter no portfólio da Endeavor em Santa Catarina. Naquele período, começavam a surgir algumas das maiores startups da região, como a Resultados Digitais em Florianópolis e a ContaAzul em Joinville, que dobravam de tamanho a cada ano e justificavam um termo que começava a ser reproduzido no ecossistema de inovação, as “scale-ups”: empresas com alto potencial de crescimento que expandem pelo menos 30% ao ano por vários anos seguidos.

Guilherme Lopes, coordenador da Endeavor em SC: desafio é auxiliar os empreendedores a enfrentar as “dores” do crescimento e manter o ritmo. / Foto: José Somensi

“Nossa missão é fazer com que essas empresas se desenvolvam e mantenham o crescimento a partir das dores comuns da expansão, que isso seja um exemplo para outros empreendedores e que retornem isso de alguma forma para o ecossistema, seja na geração de empregos, no retorno ao investidor, em mentorias. É é o que acaba acontecendo”, resume Guilherme Lopes, coordenador regional da Endeavor em Santa Catarina desde o ano passado. Assim como Marcos, ele já conhecia o ambiente de TI local, após alguns anos atuando pela Fundação Certi em programas como Sinapse da Inovação e InovAtiva Brasil.  

SCALE-UPS: AJUDANDO NO DESAFIO DE MANTER O CRESCIMENTO

Não demorou muitos anos para que os fundadores de RD e ContaAzul fossem selecionados como “Empreendedores Endeavor”, iniciativa que oferece acesso a uma grande rede de apoio, de pessoas a instituições e fundos de capital de risco. Estas empresas reuniam os predicados necessários para ilustrar o que era uma scale-up: crescimento acelerado, interesse de fundos internacionais e apetite pelo mercado internacional. Anualmente, mais de 5 mil empreendedores são avaliados e menos de 1% são selecionados para o programa. Em Santa Catarina, há 18 empreendedores Endeavor.

Nos últimos três anos, a entidade começou a direcionar mais os esforços para disseminar o conceito – e encontrar exemplos – de “scale-ups” em Santa Catarina e no país. Foi o que levou à criação do programa Scale-up Endeavor, que já ajudou a desenvolver negócios crescentes e inovadores de 14 cidades catarinenses: Florianópolis, Blumenau, São Carlos, Balneário Camboriú, Itajaí, Brusque, Jaraguá do Sul, Joaçaba, Araranguá, Joinville, Tubarão, Pomerode, Garopaba e Chapecó.

As empresas que participaram da edição 2017 do Scale-up ampliaram a sua oferta de empregos em 55% e registraram um aumento médio de 126% na receita na comparação com o ano anterior.

“Não ensinamos negócios, ensinamos ele a ficar sólido”, ressalta Guilherme.

Mas nem só de techs são feitas as scale-ups catarinenses. É o caso do Instituto Mix, uma rede de cursos profissionalizantes com sede em Araranguá, no extremo sul do estado, que funciona no modelo de franquias e já está em mais de 400 cidades e agrega 3 mil colaboradores. São mais de 70 cursos em nove áreas de formação, como administração, beleza, construção civil, gastronomia, saúde e moda. E como esta scale-up foi encontrada? “O Alex (Cavalheiro), fundadora da empresa, era um dos caras que mais consumia os conteúdos que a Endeavor produzia e divulgava. Ele tem uma história fantástica que poucos conheciam”, explica o coordenador.

Há vários outros exemplos, como cervejarias, rede de cafeterias e marcas de roupas, que passaram pelo programa para entender quais seriam os pontos mais importantes a serem trabalhados para manter nos próximos anos o crescimento acelerado.

QUEBRANDO O CICLO DE SOLIDÃO DO EMPREENDEDOR

Empreendedor Endeavor desde 2014, Gabriel Bottós foi uma das primeiras referências de “scale-up” em Santa Catarina com a Welle Laser, empresa que fundou com o irmão Rafael e que foi reconhecida como a PME que mais cresceu no Brasil entre 2011 e 2013. Segundo o ranking da consultoria Deloitte, a receita da Welle – que se tornou líder em marcação a laser para a indústria – cresceu 1.800% naquele período.

” É uma sensação muito boa transformar erros passados em um legado para ajudar outros empreendedores a crescer”, explica Gabriel Bottós, da Welle Laser e empreendedor Endeavor desde 2014.

“A Endeavor, por meio da rede de mentores, ajudou a quebrar o ciclo de solidão dos empreendedores. Como estávamos explorando um campo ainda inédito no mercado, não tínhamos com quem conversar, aprender, era muito difícil”, recorda Bottós, que fundou a empresa com o irmão em 2008.

Compartilhar os erros e ajudar novos empreendedores acabou sendo uma missão para ele e o irmão nos últimos anos, que criaram a GRB, uma venture builder que apoia negócios com alto potencial de crescimento, como a Exact Sales (que desenvolve software para vendas complexas), a GnTech (laboratório focado em genética humana) e a Thermoff (que criou uma tinta que faz fotossíntese artificial).

“Aquele problema que aconteceu na empresa no passado deixa de ser apenas um arrependimento, uma lembrança negativa quando você transforma em aprendizado para alguém. É uma sensação muito boa transformar erros passados em um legado para ajudar outros empreendedores a crescer. Foi a Endeavor que abriu minha cabeça para isso”, resume.

Como destaca Guilherme Lopes, “o ecossistema em Santa Catarina se reinventa muito. Temos uma rede muito extensa, estamos sempre olhando pras tendências, conversamos muito com empreendedores, olhando pessoas que tem possibilidade de crescer. Esperamos encontrar cada vez mais outliers, gente fora da curva, como os empreendedores que fazem parte da rede, mas em número ainda maior.

As empresas apoiadas pela rede Endeavor em Santa Catarina são: ContaAzul, Ecoville, Pollux, Resultados Digitais, Sempre Sementes, Welle Laser, Nano Endoluminal, Neoway, Tecnoblu e Uatt!?.

Reportagem: Fabrício Rodrigues, scinova@scinova.com.br