[CULTURA DIGITAL] Como o online turbinou a desonestidade

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[CULTURA DIGITAL] Como o online turbinou a desonestidade

Algumas das fraudes mais descaradas, brilhantes e lucrativas da história ocorreram na era moderna. Enquanto alguns golpistas receberam sentenças de prisão impossíveis de sobreviver, outros foram glorificados no cinema.

Algumas das fraudes mais descaradas, brilhantes e lucrativas da história ocorreram na era moderna. Enquanto alguns golpistas receberam sentenças de prisão impossíveis de sobreviver, outros foram glorificados no cinema.


[26.03.2021]


Por Alexandre Adoglio, CMO na Sonica e empreendedor digital.
Escreve semanalmente sobre
Cultura Digital para o SC Inova  

Em 1883, a polícia de Nova York prendeu um homem chamado Peaches O´Day. Carismático e “um homem de aparência refinada” de acordo com a imprensa da época, Peaches abordava estranhos, conversava com eles e conquistava sua confiança, convencendo-os então a abrir mão de seu dinheiro em troca de grandes oportunidades de investimento, como por exemplo, comprar a ponte do Brooklyn em Nova York. Mas não só uma única vez, pois segundo dados da própria polícia, a ponte que pertence ao estado de NY foi “revendida” mais de 10 vezes desde sua inauguração, algumas vezes pelo mesmo revendedor.

Um velho provérbio adverte que “um tolo e seu dinheiro logo se separam”, e os vigaristas justificam cumprir essa separação com uma das Leis de Murphy: “É moralmente errado permitir que otários fiquem com seu dinheiro”.

Algumas das fraudes mais descaradas, brilhantes e lucrativas da história ocorreram na era moderna; às vezes a manobra era realizada com cheques em branco, outras com títulos falsos e nos últimos tempos com forte auxílio de computadores, softwares e apps. Alguns golpistas receberam sentenças de prisão impossíveis de sobreviver, outros foram glorificados no cinema e outros foram retirados da prisão em troca de ajudar a aplicação da lei a prevenir golpes e até mesmo executar golpes próprios.

THE BLUE CHECK MARK 

Para muitos usuários, a marca azul ao lado do seu próprio nome no perfil das redes sociais é um reconhecimento social e de status que promove não só sua própria identidade como é elemento ativo de marketing pessoal. Porém nos últimos meses algumas personalidades estão sendo afetadas por golpistas que ameaçam ”furtar” a marca de verificação, que só é concedida após um processo demorado de reconhecimento do usuário. Normalmente utilizado por pessoas famosas, celebridades e marcas, a tal marca azul já faz parte da nossa #culturadigital e possui um valor intrínseco para quem o possui.

Vamos deixar claro, para começar o Instagram não envia DM (mensagens diretas) ao usuários se suas postagens violarem as políticas da empresa, incluindo direitos autorais. Em vez disso, a postagem ofensiva é simplesmente removida e você recebe uma notificação sobre essa ação, da qual pode apelar. Desta forma a estranheza de um editor digital, Peter Slattery, quando começou a receber mensagens ameaçando sequestrar sua marca azul caso não clicasse em determinado link.

No ano passado, vários meios de comunicação e postagens de mídia social relataram que contas verificadas de atores, refrigerantes e marcas como The North Face estavam sendo comprometidas e transformadas em bots de spam. Também foram encontrados exemplos de golpistas usando identificadores de marca azul roubadas de jogadores da NFL, bancos e uma conta afiliada à Feira Internacional do Livro de Torino.

Em outras palavras, para os golpistas, as marcas de verificação azuis levam os usuários a confiar nas contas sequestradas, entregando suas informações e sendo controlados no esquema. Embora os critérios e o processo para obter a verificação do Instagram e o crachá de “verificação azul” resultante sejam turvos, a designação é desejável e funciona como um crachá de autenticidade, que está ameaçada pelo crescimento dos casos de falsidade.

QUANTO MAIOR A GANÂNCIA, MAIOR O GOLPE 

Em 2003, Elizabeth Holmes, de 19 anos, aluna em engenharia química e elétrica de Stanford, fundou a startup Theranos com o objetivo de revolucionar os exames de sangue. Usando um nanotainer (um pequeno dispositivo projetado para extrair, reter e analisar uma gota de sangue da ponta do dedo de um paciente) e sua tecnologia proprietária de teste Edison, Theranos afirmava que o dispositivo poderia executar uma infinidade de testes na fisiologia de um paciente dentro minutos e por uma fração do custo da tecnologia atual.

Elizabeth Holmes e a picaretagem da Theranos: golpe publicitário pretendia revolucionar os exames de sangue e captou uma fortuna

Com isso a startup de tecnologia de saúde para o consumidor chegou a ser avaliada em US$ 10 bilhões, alavancada fortemente em ações de RP e social media, levando uma série de investidores a apostarem alto suas economias no negócio, como no caso do fundo de investimentos Capital BlueCross e seus 750.000 clientes. 

Porém em 2014, após vários anos de respostas evasivas, o avanço tecnológico que a CEO Elizabeth Holmes e o ex-presidente da empresa Ramesh Balwani apregoaram nunca foi demonstrado, e as afirmações de sucesso da empresa representavam um engano total, sendo acusados por fraude maciça pela SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos). Atualmente o caso Theranos é tido como o maior engodo mundial no ecossistema de startups e tecnologia.

WHATSAPP CLONADO, QUEM NUNCA?

Pesquisas mostram que  o Brasil é líder mundial em ataques do tipo phishing, onde golpistas furtam informações valiosas das vítimas através de falsas promoções ou links maliciosos enviados por sites, e-mails ou apps de mensagem. O estudo avaliou que os ataques se intensificaram durante o período inicial da pandemia, entre fevereiro e março de 2020. Somente nesses meses, a quantidade de tentativas cresceu mais de 120%. Os principais fatores de estímulo foram o aumento do uso da Internet, o crescimento dos acessos a serviços de Internet banking e compras online, além da ansiedade por informações sobre o coronavírus causador da Covid-19. 

O levantamento revela que o Brasil está acima da média global de usuários atacados por phishing, que é de 13% sendo que  a diferença pode ser explicada pela dificuldade dos brasileiros em diferenciar golpes de mensagens verdadeiras na Internet. No ranking de porcentagem do total de usuários atacados temos:

Brasil   19,94%
Portugal 19,73%
França 17,90%
Tunísia 17,62%

E para ficarmos ainda mais atentos, temos a análise dos maiores golpes digitais no Brasil neste último ano, desde a fraude do Pix até o famigerado roubo da conta no WhatsApp.

FRAUDANDO A TOLICE SOCIAL

A herdeira alemã Anna Delvey, de 28 anos, vivia uma vida dos sonhos para muitas mulheres nessa faixa etária, com longas hospedagens em hotéis de luxo de Nova York, festas com a elite nova-iorquina e viagens para estadias de férias no outro lado do Atlântico.  Desde alugar um jatinho para viajar para uma conferências de investidores com Warren Buffet, até passar uma semana num hotel de luxo em Marrakech e jantar em restaurantes nobres com celebridades americanas, como o ator Macaulay Culkin.

Toda uma vida de luxo e glória era documentada na rede social Instagram, onde Sorokin tinha uma conta.

Em Nova York, Sorokin contava a história de que era uma herdeira vinda da Alemanha e aguardava o recebimento de uma gorda herança quando chegasse aos 25 anos para investir em um espaço cultural na cidade. O sonho dela era abrir um centro de artes plásticas na Church Missions House, um prédio histórico na esquina da Park Avenue com a East 22nd Street. Um designer gráfico londrino estava encarregado do logotipo do centro, que já tinha nome: Anna Delvey Foundation. Ela circulava com desenvoltura pelo mundo da moda e das artes plásticas, quando no final de 2017 foi confrontada por uma série de dívidas e finalmente desmascarada e presa.

Anna Delvey, ou melhor, Anna Sorokin, conseguiu mimetizar uma personalidade utilizando uma simples conta de Instagram.

Delvey, que na verdade se chama Anna Sorokin, nasceu na Rússia e se mudou para a Alemanha com 16 anos, virou queridinha da elite nova-iorquina e ao longo de dez meses deixou um rastro de vítimas de calotes no valor de US$ 275 mil (cerca de R$ 1,06 milhão). A história, que a princípio foi revelada em uma entrevista, deve em breve virar série na Netflix por sua desenvoltura de quem conseguiu mimetizar uma personalidade utilizando uma simples conta de Instagram.

Na verdade, o mundo real nunca foi tão comprometido com o virtual, deixando para todos nós alguns aprendizados importantes sobre confiança e segurança. Para completar aqui vão algumas dicas Serasa para atentarmos nestes tempos de vida digital: 

  1. Pesquise a idoneidade da empresa. 
  2. Confira os dados comerciais da empresa de comércio eletrônico.
  3. Fique de olho na certificação digital.
  4. Atente à qualidade dos textos e imagens.
  5. Conheça a reputação da empresa.
  6. Peça indicações.
  7. Leia a política do site.
  8. Use dispositivos seguros.
  9. Fuja de promoções mirabolantes.
  10. Guarde os comprovantes de compras.

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