Adotar um modelo de negócio aberto é chave para a inovação aberta

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Adotar um modelo de negócio aberto é chave para a inovação aberta

Abrir fronteiras e sua estrutura para atores externos: para muitas empresas que se consideram inovadoras, essa mudança de paradigma ainda não aconteceu. / Imagem: Pixabay


[28.09.2021] 


Por Marcus Rocha, CEO do 2Grow Habitat de Inovação.
Escreve quinzenalmente sobre ambientes e ecossistemas de inovação no SC Inova

A inovação aberta, como a própria expressão dá a entender, pressupõe que a organização abra suas fronteiras para produzir inovações. No entanto, a palavra “aberta” é bastante ampla e dá margem a diferentes interpretações.

Pouco tempo depois de cunhar o termo “Open Innovation“, o próprio Henry Chesbrough indica que, para desenvolver a inovação aberta, as empresas precisam necessariamente evoluir seus modelos de negócio. Para que isso aconteça ele sugere que as empresas adotem Modelos de Negócios Abertos (Open Business Models).

Por definição, um modelo de negócio traduz em estruturas e processos todas as atividades da empresa para criar, entregar e capturar valor. A criação de valor acontece por meio do atendimento a uma necessidade de mercado, traduzida pela entrega de produtos e/ou serviços para um determinado público-alvo. E a captura do valor é a capitalização da entrega, ou seja, a tradução do benefício percebido pelo público-alvo na forma de uma remuneração. Para ser sustentável, um modelo de negócio precisa ter uma captura de valor maior que os custos para realizar a entrega.

Quando se fala em modelos de negócios abertos, percebe-se a necessidade da empresa abrir suas fronteiras e estruturas para atores externos. Para muitas empresas que dizem fazer inovação aberta, essa é uma mudança de paradigma que efetivamente não aconteceu. 

A primeira mudança que precisa acontecer para a adoção prática de um modelo de negócio aberto é cultural. As pessoas que trabalham na empresa precisam perceber a necessidade de compartilhar conhecimentos e responsabilidades com parceiros externos, a começar pelo desenvolvimento ou aprimoramento dos produtos e serviços atuais.

É necessário criar uma rede de parceiros baseada na confiança mútua mais do que em procedimentos altamente burocráticos e contratuais. Aspectos jurídicos relacionados a questões como sigilo e propriedade intelectual devem ser considerados, mas eles não podem engessar as operações da parceria.

Outra mudança cultural diz respeito à captura do valor, principalmente na divisão da remuneração ou dos resultados da entrega de valor com os parceiros, de forma proporcional às suas respectivas participações em cada momento. Empresas que são excessivamente protecionistas em relação a essa questão tendem a não desenvolver parcerias sustentáveis, com tendência a manter seu modelo de negócio fechado.

Empresas excessivamente protecionistas tendem a não desenvolver parcerias sustentáveis. / Foto: Freepik

Para adotar um modelo de negócio aberto, a empresa também precisa realizar modificações importantes nos seus processos, principalmente aqueles ligados à entrega de valor, pois precisam considerar que grande parte das atividades-fim será desenvolvida por atores externos.

Boa parte dos modelos de negócios altamente escaláveis implanta essa prática, pois permite que a empresa tenha um crescimento de negócios expressivo sem que precise crescer na mesma proporção suas estruturas, equipes e custos – nesses casos, o crescimento normalmente é da rede de parceiros, que de alguma forma passam a participar da captura de valor. Os melhores exemplos disso estão em empresas que aplicam modelos de negócios tais como marketplaces, P2P, economia colaborativa, e outros similares.

VANTAGENS DO OPEN BUSINESS MODEL

É importante destacar as principais vantagens dos modelos de negócios abertos. Na criação de valor, ligada ao desenvolvimento de novos produtos ou serviços e foco principal nas atividades de inovação das empresas, os modelos abertos trazem benefícios bastante óbvios. O maior deles é a redução das ineficiências das atividades de inovação em produtos/serviços. 

Quanto maior o nível de competitividade em um determinado mercado, maiores têm sido os custos necessários para o desenvolvimento de novas tecnologias. Além disso, os ciclos de vida dos produtos estão cada vez menores, sendo necessário lançar novidades com maior frequência do que antes. Então, com pressões por novidades em praticamente todos os setores, somadas aos crescentes investimentos para desenvolvê-las, é necessário que as empresas busquem parcerias para dividir esse fardo. Dessa forma, é preciso buscar parcerias para dividir tanto a responsabilidade quanto os custos – e também os resultados.

O conjunto de práticas recomendadas pela inovação aberta proporciona um caminho mais seguro para as empresas que buscam se abrir na criação de valor. Mas é importante lembrar que, além de considerar uma divisão real de responsabilidades no desenvolvimento de produtos/serviços – e não apenas a contratação de um fornecedor -, as empresas devem ir além dos editais de seleção de startups, considerando também ações junto a outros parceiros tais como centros de pesquisa, universidades, fornecedores, centros de inovação, entre outros.

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Menos comum, mas não menos importante, é a possibilidade de aplicar a inovação aberta no desenho da entrega de valor. Com a imensa disponibilidade de conhecimento que existe hoje é relativamente fácil buscar referências de modelos de entrega de valor de empresas bem sucedidas, o que leva a muitas empresas buscarem a simples cópia.

No entanto, a entrega do valor apresenta oportunidades significativas para que a empresa alcance maior escalabilidade dos seus negócios e, considerando abordagens abertas, pode criar oportunidades de lucros maiores e mais sustentáveis em relação a modelos fechados.

E A TRANSIÇÃO PARA O MODELO ABERTO?

Também é importante pensar como realizar a transição do modelo atual para o novo modelo de negócio aberto, afinal de contas não se trata de um processo rápido e nem simples, pois a empresa precisa continuar operando de forma ininterrupta. A principal preocupação deve estar no sentido de migrar a base de clientes que está no modelo atual, para o novo modelo. Da mesma forma que a própria empresa precisa enfrentar resistências internas às mudanças, é necessário considerar que muitos clientes também poderão se comportar da mesma forma. Então é fundamental criar discurso e ofertas para reter os clientes, que principalmente evidenciem as vantagens do novo modelo e recompensem a fidelidade.

Outra questão não menos importante é garantir que os processos do novo modelo de negócio tenham a mesma qualidade, ou mais, em relação aos processos atuais. Além disso, é necessário que, na fase de transição, os novos processos coexistam com os atuais, o que pode causar conflitos internos entre as equipes, e até mesmo algum grau de confusão, principalmente com aquelas pessoas que trabalharam com os processos antigos e ainda não absorveram totalmente os novos.

Nota-se claramente que modelos de negócios abertos necessitam do patrocínio e da liderança da alta direção das empresas, para que efetivamente sejam implantados e gerem os resultados esperados. É necessário incluir nas estratégias da empresa a criação e a orquestração sistemática de uma rede de parceiros confiáveis e com competências complementares. E, acima de tudo, se deve cuidar das resistências às mudanças e aos modismos, que podem fazer com que a empresa caia em alguma armadilha do “teatro da inovação“, assunto já tratado em artigo anterior. 

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