Entender demandas do mercado educacional e levar tecnologias à sala de aula: o propósito que criou a Vertical Educação

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Entender demandas do mercado educacional e levar tecnologias à sala de aula: o propósito que criou a Vertical Educação

Em cerca de uma década de atuação, grupo que reúne empreendedores de TI quer ampliar contato com o segmento para ajudar a desenvolver soluções inovadoras a alunos e professores.

Em cerca de uma década de atuação, grupo que reúne empreendedores de TI quer ampliar contato com o segmento para ajudar a desenvolver soluções inovadoras para alunos e professores. / Foto: Divulgação ACATE

 

Reportagem: Fabrício Rodrigues, editor SC Inova – scinova@scinova.com.br 

O debate sobre o modelo de ensino nas escolas do Brasil e a necessidade de ampliação de investimentos públicos em educação – sempre considerada uma prioridade em discursos eleitorais – geram, a cada ano, uma série de novas questões: como levar as novas tecnologias para dentro (e fora) das salas de aula? Como estimular professores a utilizarem estas novidades e o protagonismo de alunos que já são nativos digitais? E, em paralelo, como empreendedores podem entender as demandas do mercado educacional e desenvolver soluções inovadoras para aplicar nas escolas públicas e privadas?

Em Santa Catarina, este debate é feito há cerca de uma década por meio da Vertical Educação da Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE), que reúne mais de 30 empresas que desenvolvem produtos e serviços de TI para o setor e também agrega a participação de representantes da universidades, escolas públicas e privadas e governos municipais e estadual.  

“Buscamos uma aproximação com outros membros do ecossistema de educação, desde fundações privadas, escolas particulares até secretarias de governo para juntos compreender necessidades e construir soluções tanto para a rede pública, a rede privada e também para a educação corporativa”, explica a diretora da Vertical Educação, Nadine Heisler.

Segundo ela, o Brasil vive um momento histórico: o debate sobre a Base Nacional Curricular, que deve ser implementada em 2020 no ensino fundamental de todo o país. “Até hoje não tínhamos uma diretriz de competências, habilidades e saberes que precisam ser desenvolvidos nos nossos alunos. É um desafio grande, adequar todos os currículos em cima dessa base, e a tecnologia pode nos ajudar muito para tornar o aluno mais protagonista de seu aprendizado, com utilização de metodologias ativas, por exemplo”, destaca.

“Buscamos uma aproximação com outros membros do ecossistema de educação para compreender necessidades e construirmos soluções”, explica Nadine Heisler, diretora da Vertical Educação. / Foto: Fabrício Rodrigues

Este foi o tema do primeiro encontro promovido pela Vertical Educação em 2019, na sede da Acate, em Florianópolis. “Não falar de tecnologia e cultura digital na educação gera alienação”, diz Leonardo Correia, coordenador de Projetos na Fundação Lemann, organização sem fins lucrativos que apoia iniciativas inovadoras e empreendedoras na área educacional, e que foi um dos convidados do meetup promovido pela Vertical. Na avaliação dele, é preciso “colocar o aluno no centro da aprendizagem, e esta aprendizagem deve ser baseada na construção de projetos e resolução de problemas, no pensamento científico, crítico e criativo para validar hipóteses e criar soluções”.

Segundo Nadine, as empresas que desenvolvem tecnologia para educação e participam da Vertical “já trabalham com o aluno como sendo o protagonista, instigam a criatividade e o espírito investigativo”. Com experiência de mais de 20 anos em projetos de Educação e Comunicação, ela criou há pouco mais de um ano a startup Domlexia, uma plataforma online para ajudar na disseminação de informações sobre dislexia, além de facilitar a educação de quem sofre com o distúrbio.

Entre as participantes da Vertical, há também desenvolvedoras de softwares para gestão educacional, plataformas de e-learning, games e tecnologias para sala de aula, entre outras soluções. Um portfólio que serviu para a criação de um projeto inovador na área de tecnologia educacional no país, o “Cluster de Inovação na Educação de Santa Catarina“, um amplo estudo que apresentava tendências, novos conceitos e também as soluções desenvolvidas por empresas catarinenses que poderiam ser aplicadas no setor educacional.

“Um dos principais problemas quando se trata de uso de tecnologia nas escolas públicas é não saber o que comprar, nem como comprar – e de qual fornecedor. Não adianta adquirir algo super moderno produzido em outro país e não ter um apoio, uma continuidade sobre como usar isso no dia a dia”, detalha Silvio Kotujansky, vice-presidente de Mercado da Acate e primeiro diretor da Vertical Educação.

“O papel desse grupo é apresentar, de forma muito clara, o ‘cardápio’ de soluções que existem e são desenvolvidas localmente, para ajudar a colocar efetivamente isso na educação dos alunos”, explica.

Porém, o projeto do Cluster de Inovação –  que havia sido abraçado pela então secretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável (SDS), Lucia Dellagnelo, em conjunto com a Secretaria Educação e a Vertical, com apoio de universidades – foi paralisado logo após rodar um pequeno piloto em algumas escolas do estado, em função do fim de um financiamento que o governo do estado iria obter com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

“Nós tínhamos produtos maravilhosos na Vertical e precisávamos organizá-los em um portfólio para oferecer ao mercado”, lembra Silvio Kotujansky, primeiro diretor da Vertical, sobre o projeto Cluster de Inovação na Educação de SC, que deve ser retomado em 2019. / Foto: José Somensi.

“Nós tínhamos produtos maravilhosos na Vertical e precisávamos organizar um portfólio destes produtos para oferecer ao mercado. Mas foi muito além disso, se tornou o projeto de um cluster de inovação em educação. Buscamos consultores de renome nacional, contratamos um gerente para esse projeto, organizamos o mapeamento de fornecedores de soluções e fizemos um benchmarking internacional para trazer essas referências para o estado”, lembra Silvio. Faltou, contudo, o recurso para fazer o projeto decolar naquela época.  

PROJETO NACIONAL AJUDOU A CRIAR MODELO EM SC

No final dos anos 1990, quando ainda tinha a Complex, empresa que desenvolvia softwares para educação, Silvio começou a articular com a secretaria de Educação em Santa Catarina o projeto de um “plano diretor de tecnologia” para o sistema de ensino no estado. “Era um mapeamento das empresas que tínhamos aqui, baseado na ideia, um tanto ingênua, de usar o poder de compra do governo para estimular as empresas locais a desenvolver projetos de acordo com as necessidades do setor público. Foram reuniões bacanas, uma ideia bonita, mas que não deu em nada durante alguns anos”, recorda.

Em paralelo, havia um projeto em nível federal – o ProInfo – que pretendia dotar as escolas públicas estaduais com laboratórios de informática. O governo federal entraria com os computadores enquanto os estados ficariam responsáveis pela compra do software. Um dos articuladores desse projeto dentro do setor privado, Silvio lembra que vários fornecedores brasileiros de software conseguiram, a partir de encontros regionais com representantes de governos estaduais, fazer negócios com a rede pública e levar tecnologia local a escolas e instituições profissionalizantes.

Essa bagagem foi importante, anos depois, quando aceitou um convite do então presidente da Acate, Rui Gonçalves, para liderar a criação da Vertical Educação, seguindo um modelo de conexão entre empreendedores do mesmo segmento para gerar negócios em conjunto – na época, só existiam as verticais de Energia, Segurança e Telecom (atual Conectividade).

A atual diretora da Vertical Educação diz que uma das prioridades do grupo neste ano é a retomada do projeto do Cluster com os órgãos públicos e demais empresas e entidades privadas do estado. “Estamos planejando encontros com diversas instituições para compreender os direcionamentos do mercado educacional hoje, as tendências e como podemos nos ajudar”, define Nadine.

A rede pública de ensino em Florianópolis poderá ser, a partir do ano que vem, um bom laboratório para colocar em prática estas tendências e inovações em sala de aula. Segundo o secretário municipal de Educação, Maurício Fernandes Pereira, serão inauguradas em 2020 duas escolas, nos bairros de Ratones (norte da Ilha) e Tapera (sul), que funcionarão em tempo integral, com ensino em multilinguagem (português, inglês, libras e programação) e espaço ‘maker’ para os alunos desenvolverem projetos e softwares como parte do processo de aprendizado.

A tecnologia precisa ajudar os professores a mudar o conceito que eles têm de escola e de sala de aula. É preciso passar conteúdo com mais impacto, o mundo mudou e as crianças mudaram. Se o professor não mudar também ele será visto apenas como um chato na frente da sala. Tecnologia não é só digital, é aprender a fazer e resgatar a possibilidade de trabalhar em conjunto”, comenta o secretário.

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