[Cultura Digital] Homo autônomo: um dia, daqui a (pouco) tempo

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[Cultura Digital] Homo autônomo: um dia, daqui a (pouco) tempo

Uma fábula sobre nossa rotina em um mundo em que a automação e a digitalização está acima de tudo – e a inteligência artificial acima de todos.

Uma fábula, em uma realidade não muito distante, sobre nossa rotina em um mundo em que a automação e a digitalização estão acima de tudo – e a inteligência artificial acima de todos.


[18.12.2020]

Por Alexandre Adoglio*

André acordou logo que as cortinas do apartamento se abriram, revelando um pouco do céu azul que se apresentava naquelas seis horas da manhã de uma terça feira qualquer. Saiu da cama num pulo e se dirigiu ao banheiro, observando o chuveiro ligar automaticamente assim que se aproximou, tornando embaçado o espelho que já apresentava as primeiras notícias do dia, e alguns dados como previsão do tempo e melhores rotas de trânsito.

Saiu do banho matinal verificando as últimas mensagens através da voz de seu assistente pessoal, que repetia os compromissos do dia, bem como lembranças úteis para a jornada que se iniciava. Se dirigiu ao guarda-roupa quase tropeçando no robô-aspirador que já se encontrava na função de limpar o quarto para em seguida rumar para os demais cômodos, sempre silencioso e eficaz. Ao colocar o relógio, recebeu um aviso sonoro e vibrante sobre sua pressão corporal, bem como os resultados do seu hemograma, que já tinha sido analisado pelo bot do laboratório que coletou seu sangue por um aplicativo no smartphone.

Se dirigiu a cozinha, pegou o café que já estava passado na cafeteira e alguns pães recém assados no forno elétrico, para em seguida se direcionar até a geladeira e verificar no visor da porta quais seriam as refeições do dia. Apertou um botão na tela e um dos compartimentos se abriu, contendo iogurte com granola e um pouco de ração protéica. Fez o desjejum olhando para as últimas notícias projetadas na mesa da cozinha, interrompendo de vez em quando para tomar notas sonoras no seu assistente pessoal, que em seguida avisou sobre o possível atraso que ocorreria na videoconferência que teria dali alguns minutos.

Se lembrou de cumprimentar o novo meta-emprego de um amigo, acessando o chip no seu córtex que automaticamente lhe conectou com a rede social, para em seguida postar uma mensagem com as memórias conjuntas que tiveram desde que se conheceram há alguns anos. Na mesma rede, acessou as mensagens do canal de paquera para selecionar seu próximo encontro, já que teria quase 32 horas desconectado quando lhe fosse conveniente.

Humanos ou digitais? Sistemas aprendem como somos e agimos enquanto virtualizamos atividades de trabalho e lazer.

A reunião online durou cerca de 90 minutos, nos quais ele e seus companheiros mostraram informações de performance e alinharam os próximos passos, sabendo que todos os dados já haviam sido analisados pela inteligência artificial da empresa que trabalhava, gerando ações automáticas  em massa que iriam impactar a vida de milhões de pessoas na próximas semanas.

Perto das 11h da manhã, André decidiu ir jogar pádel virtualmente com um grupo de conhecidos, conectados neuralmente para combinarem o local. Se vestiu enquanto esperava que o banheiro fosse liberado pelo sistema de limpeza interno, que após cada uso vaporizava o local com uma substância química desenvolvida para matar 99,99% de tudo. Entrou rapidamente, escovou os dentes e apertou algumas vezes o teclado no espelho para definir o trajeto até a quadra de jogo. Assim que selecionou o caminho com os olhos o sistema de rodízio do prédio levou seu carro elétrico até a saída e enviou o elevador ao seu andar para buscá-lo.

No caminho o automóvel escolhia de forma autônoma sua velocidade e trajeto, a fim de cumprir o horário estabelecido no setup da viagem, possibilitando a André o acesso ao tablet interno para verificar a agenda do período da tarde naquele mesmo dia. Ao se deparar com um lembrete, deu conta de quanto sua memória estava fraca, pois era o aniversário de seu avô e quase havia esquecido a data. Em alguns toques encomendou uma bela picanha como presente, acessando as memórias do velho e emitindo esta compra como presente que será entregue virtualmente na câmera hiperbárica que ele mora desde a finalização de suas funções motoras. Fez uma anotação neural de que precisava visitar o velho antes do upload definitivo.

Durante o jogo de pádel, recebeu mensagens constantes sobre sua performance, através do chip e do dispositivo na raquete conectado ao sistema virtual da quadra, que regulava automaticamente temperatura e pressão atmosférica de acordo com estado de ânimo dos jogadores. Ao final puderam curtir um isotônico customizado individualmente com ingredientes necessários para prover saúde a cada um dos jogadores, que substituiu com vantagens o almoço.

Ao sair do local, André foi bipado pelo link neural confirmando que a paquera topara uma conversa virtual dali algumas horas, definindo em seguida os níveis de acesso que ela teria ao seu acervo da rede social, fotos, vídeos, pensamentos e memórias. Decidiu que só depois de conhece-la melhor iria conceder acesso ao seu banco de conhecimento e experiências, além do seu portifólio de implantes. Pensou melhor e este último talvez não, somente se um dia fosse um namoro firme.

Sistemas, plataformas, wearables… conectados, conversamos com uma parafernália de tecnologias que geram dados a respeito de nossos próprios hábitos e gostos.

No trajeto decidiu parar em uma das muitas estações de recarga para verificar o estado do veículo e saber das últimas novidades e funcionalidades para seus gadgets. Como optou pelo ecossistema mais em conta podia acessar sem custo uma infinidade de benefícios que eram ofertados, a grande maioria com mensalidades abaixo de 10 dinheiros. Aproveitou para conferir como estava seu credit score, pois planejava trocar o carro por um aeroplano nos próximos meses, que lhe permitiria visitar os pais com mais frequência devido ao trânsito caótico dos automóveis para quem saía da cidade. Notou que o boot da conta digital já havia refeito alguns investimentos que tinham seu perfil, e também leu as notificações sobre sugestões de como gerar mais receita e gastá-la também.

Uma promoção ali era um combo onde poderia comer o seu hambúrguer preferido durante a transmissão daquela banda ao vivo no estádio local. Já tinha planos caso o papo online do crush não vingasse. Ao adentrar a loja recebeu algumas mensagens no seu córtex sobre as campanhas do dia, inclusive uma que poderia atualizar o seu sistema smarthouse por apenas 2 dinheiros, o que levou a pensar sobre os planos do aeroplano.

Decidiu voltar pra casa pois chegava a hora do encontro via neocortex. Enquanto acessava seu estoque de comida pelo tablet do carro recebeu uma feliz mensagem do avô agradecendo pelo presente e dizendo que estava com saudades. Conversaram sobre um passado distante, em que o saudoso avô contava sobre um vírus que havia modificado a forma da humanidade viver no início do século XXI, relembrando André sobre as aulas online de história que mencionavam a transformação de vida de todos naquela situação. – “Melhoramos como sociedade”, era o que diziam os mais velhos – “Ficamos mais humanos uns com os outros”, as aulas de saúde cognitiva respaldavam.

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Enquanto André solicitava ao mercado local uma garrafa de vinho e alguns quitutes acessou sua app store medicinal, onde todo seu registro de saúde estava catalogado, e solicitou check-up imunológico do seu hemograma, pois havia ficado um pouco resfriado na véspera. Recebeu a confirmação viral, bem como o sinal de que o medicamento via nanorobôs já lhe aguardava na próxima dose de proteína na sua geladeira.

Chegou em casa, se arrumou com sua segunda pele biológica conectada aos neurônios e colocou calça jeans, tênis e camiseta, preocupando-se em parecer descontraído para a moça com quem iria se conectar. Sentou-se em sua sala holodeck e desligou todas conexões exteriores, exceto da rede social com o chip no seu neocortex, recebendo a esperada chamada que começou com um papo leve e foi esquentando conforme a noite caía. 

Um novo amanhecer, André acordou com um bom dia carinhoso da projeção 3D deitada ao seu lado, amarrado no sorriso que lhe despertou todas as sensações na noite passada. Mesmo sabendo que estava ali um avatar da rede social, deu bom dia a ela e rumou para mais uma jornada da vida.


ALEXANDRE ADOGLIO é CMO na Sonica e empreendedor digital.
Escreve semanalmente sobre Cultura Digital para o SC Inova.

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