HubGov: programa catarinense de inovação em gestão pública cresce e chega a quatro estados do país em 2018

Voce está em :Home-Inovadores, Sociedade-HubGov: programa catarinense de inovação em gestão pública cresce e chega a quatro estados do país em 2018

HubGov: programa catarinense de inovação em gestão pública cresce e chega a quatro estados do país em 2018

Criado pela startup WeGov, recentemente investida pela Softplan, projeto será aplicado em instituições públicas de São Paulo, Distrito Federal e Goiás.

Criado pela startup WeGov, recentemente investida pela Softplan, projeto será aplicado em instituições públicas de São Paulo, Distrito Federal e Goiás. / Foto: Marina Bitten

Um programa pioneiro no país que auxilia servidores de órgãos públicos a propor soluções inovadoras. Este foi o propósito que deu origem ao HubGov, projeto da startup catarinense WeGov que formou 55 funcionários de 14 instituições federais, estaduais e municipais na primeira turma, encerrada em setembro passado. No ano que vem, o programa ganha capilaridade pelo Brasil e, além de Santa Catarina, será replicado em São Paulo, Distrito Federal e Goiás.

Foi por meio do HubGov que instituições como a sede regional dos Correios e a Secretaria de Estado de Segurança Pública implantaram laboratórios de inovação, assim como a Polícia Militar e o TRE-SC começaram a desenvolver novos produtos e campanhas para se comunicar de novas maneiras com a população. No mês passado, o HubGov foi reconhecido em uma premiação no México como uma das 30 melhores iniciativas de inovação social voltadas ao setor público.

O programa é resultado do trabalho que o casal Gabriela e André Tamura, sócios na WeGov, tem desenvolvido desde 2012 junto a entidades públicas. No começo, eram eventos sobre uso de redes sociais, que depois evoluíram para oficinas de trabalho sobre metodologias inovadoras até o programa interinstitucional para o setor público que ajudou a reinventar a startup.

Por que, há cerca de um ano, quase nada disso teria acontecido.

Fundada oficialmente em fevereiro de 2015 com os sócios dividindo um home office nos primeiro meses, a WeGov teve um primeiro ano promissor. Instalados posteriormente no Impact Hub, em Florianópolis, ao lado de diversas empresas e incubadoras de tecnologia e inovação,  André lembra que “ficamos bem por dentro do que acontecia nas startups e levamos tudo isso pro ambiente de governo”. Naquele momento, o foco da WeGov eram programas in company e eventos como o Redes eGov, que tiveram edições em Florianópolis e Brasília.

“Sem fazer investimentos, eu e a Gabriela faturamos naquele ano quase R$ 500 mil. Contratamos duas pessoas e dobramos a equipe”, comenta André. Mas veio 2016, ano do impeachment e de cofres públicos à míngua. Além da crise política que estancou investimentos e fez a empresa faturar pouco mais de R$ 300 mil no período, André e Gabriela tinham recém se tornado pais.

 

O casal empreendedor Gabriela e André: disseminando ferramentas para inovação em instituições públicas do país. / Foto: Divulgação WeGov

“Um ano antes tinha dado tudo certo, me programei para engravidar e aí veio junto o zika vírus e a crise econômica”, recorda Gabriela, que só deixou de trabalhar para ganhar Laura, nascida em agosto passado. No final do ano, quase jogaram a toalha. Até que, no dia seguinte ao Natal, receberam um telefonema. Era Moacir Marafon, um dos fundadores da Softplan, maior empregadora de TI em Florianópolis, que tinha visto alguns meses antes uma palestra do André sobre inovação na gestão pública (uma das três áreas de atuação da Softplan). Como era Natal, Marafon quis saber se o casal estava trabalhando e se, por acaso, tinha algum projeto que a empresa pudesse patrocinar.

Tinham: o HubGov.

Lançado poucas semanas depois daquele telefonema, o programa recebeu inscrições de 14 entidades (Tribunal Regional Eleitoral, Correios, Ministério Público de SC, Assembleia Legislativa, Polícia Militar, várias secretarias do governo do estado, entre outros) e rodou ao longo de março a setembro, na sede da Softplan (novo endereço da WeGov desde o inicio do ano),com premiação para os melhores projetos e participantes mais engajados. Das 14 instituições que participaram, oito já implementaram processos de inovação a partir do que aprenderam no programa.

O HubGov acabou vindo sob medida para o projeto de corporate venture da Softplan, que anunciou na última quarta-feira (22.11), investimentos na WeGov e também na startup 1Doc, que desenvolve uma plataforma para gestão digital de documentos no setor público. Os recursos, com valor não divulgado, vão ajudar a WeGov a levar o programa simultaneamente para São Paulo, Distrito Federal e Goiás. Alguns dias antes do anúncio, as empresas foram apresentadas pelos diretores da Softplan ao ministro da Ciência e Tecnologia GIlberto Kassab durante uma agenda em Florianópolis.

“Não somos incubados, mas uma espécie de spin-in da Unidade de Gestão Pública da Softplan. Ajudamos eles a evangelizar o setor público com relação a novas soluções e assim criar demanda. Além disso, empoderamos o funcionário público”, argumenta André.

De 14 projetos de inovação desenvolvidos durante o HubGov, oito já foram implementados. / Foto: Divulgação WeGov

Origens: da comunicação Orkut ao primeiro seminário

A forma como políticos e instituições públicas usavam – ou deixavam de usar – as redes sociais estava na rotina de Gabriela desde os tempos do Orkut e dos fotologs. “Era um mercado a ser explorado. Ninguém sabia como fazer”, lembra, sobre o tempo em que administrava blogs e fotologs de alguns prefeitos e do atual governador Raimundo Colombo. Desde 2003, ela trabalhava com a tia, proprietária de uma empresa que fazia eventos técnicos para o governo de Santa Catarina e depois se graduou na primeira turma de Administração Pública da UDESC.

Em 2012, ela e o noivo André, que trabalhava à época em uma empresa de TI em Florianópolis, encararam uma nova empreitada, a realização do primeiro Seminário Nacional do Uso de Redes Sociais e Governo Eletrônico para Instituições: “não conseguimos nenhum palestrante que falasse especificamente desse tema para os governos, foi horrível”.

“Há muita gente fantástica no setor público, mas que acaba estigmatizada. Querem fazer diferente, mas atuam em ambientes muitas vezes hostis para a inovação”, comenta André Tamura

O empurrão no projeto foi acidental: a demissão de André da empresa um mês antes do casamento. “A partir desse evento surgiu todo o nosso trabalho. Nos apaixonamos pelo tema e criamos uma comunidade forte nas redes sociais, falando sobre tendências. Queríamos inicialmente só organizar os eventos mas como era difícil encontrar palestrantes, começamos a estudar bastante e sermos nós mesmos os facilitadores de trabalho em grupo, usando metodologias inovadoras para este setor”, resume.

O interesse em transformar as instituições públicas levou a WeGov a um posicionamento exclusivo na área, já que não eram um curso nem uma consultoria tradicional. Como explica Gabriela: “eu trabalhei muito tempo em consultoria e ficava muito agoniada com esse modelo de chegar em um lugar, falar o que tem que ser feito e depois ir embora. Por isso, desenhamos nossas oficinas com a visão de learn by doing, as pessoas saem sabendo como fazer”.

E uma coisa ficou clara para os empreendedores ao longo destes cinco anos de trabalho na área, como ressalta André: “há muita gente fantástica, mas que acaba estigmatizada por ser funcionário público. São pessoas que querem fazer diferente, mas que atuam em ambientes muitas vezes hostis para a inovação. Mas quando duas ou três da equipe se engajam pela mudança, ela acontece”.