Aquarela: a plataforma de data analytics que vai ajudar a Embraer no projeto de indústria 4.0

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Aquarela: a plataforma de data analytics que vai ajudar a Embraer no projeto de indústria 4.0

A trajetória da startup de Florianópolis que aposta na inteligência artificial para disseminar uma nova cultura de dados para grandes empresas brasileiras

A trajetória da startup de Florianópolis que aposta na inteligência artificial para disseminar uma nova cultura de dados para grandes empresas brasileiras

O uso analítico de dados (data analytics) é tão importante para o universo corporativo quanto a chegada dos computadores nos ambientes de trabalho. É o que acredita Joni Hoppen, 34 anos, um dos fundadores da Aquarela Advanced Analytics, startup com sede em Florianópolis e que desenvolveu uma plataforma que usa inteligência artificial para minerar grandes volumes de dados e gerar informações que ajudem empresas na tomada de decisões. “A mesma revolução daquele período está acontecendo hoje, pois você precisa ter o dado, uma estratégia de utilização deles e fazer um acompanhamento para saber qual decisão tomar”, diz o empreendedor e mestre em Sistemas de Informação pela Universidade de Twente (Holanda).

Foi com uma solução de data analytics, por exemplo, que a prefeitura de Vitória (ES) conseguiu reduzir um prejuízo no sistema público de saúde municipal em função das faltas em agendamentos médicos. “Cerca de 30% das pessoas que agendavam consultas faltavam e isso gerava um custo de R$ 22 milhões por ano. O que fizemos foi rodar um algoritmo nos processadores da rede pública e descobrimos vários padrões de comportamento que identificavam possíveis faltas”, explica Joni. Em resumo, eles identificaram que os perfis com maior risco de falta não poderiam ser agendados nos dias mais críticos (sexta e segunda), que passaram a ser prioridade para perfis com baixo índice de faltas, como o atendimento a crianças.

A análise dos dados mostrou que o envio de mensagens de celular (SMS) praticamente não surtia efeito e a prefeitura passou a usar uma plataforma (web check-in) para fazer os agendamentos e assim gerar dados mais relevantes sobre o uso do sistema público. As novas medidas geraram, no primeiro mês, uma economia real de 6,6% nas unidades de saúde que utilizavam o sistema. Se todas as 45 unidades de Vitória utilizarem o modelo, estima-se uma economia de R$ 1,3 milhão por ano com o uso aplicado de data analytics.

“Foi um divisor de águas pra gente”, lembra Joni. Logo depois da experiência capixaba, que começou em 2015 e durou um ano, a solução da Aquarela foi utilizada em um projeto do governo do estado de São Paulo, e outras iniciativas ajudaram a refinar o produto e o modelo de negócio. Fundada por Joni e o sócio Marcos Santos (CEO), a Aquarela foi incubada no MIDI Tecnológico, mantida pela ACATE, e foi destaque no InovAtiva Brasil, programa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio para acelerar startups. Finalista da terceira edição do programa, foi convidada para participar de uma missão técnica na Inglaterra (Londres e Manchester), onde tiveram contato com dezenas de investidores e empresas locais interessadas em novas tecnologias e negócios.  

O mentor da empresa no programa InovAtiva era um gestor do Fundo Aeroespacial – os cotistas são Embraer, Finep, BNDES e Desenvolve SP – que se interessou pela solução de análise de dados e abriu o caminho para a Aquarela na maior empresa de inovação do país. Em São José dos Campos, sede da Embraer, fizeram diversas entrevistas para entender as demandas internas e foram avançando no projeto de dados utilizando a plataforma de data analytics. Diz Joni: “foi um processo longo, mas depois que começamos a mostrar resultado o fundo teve a convicção de que valia a pena investir na gente”. E assim a Aquarela recebeu um aporte (com valores não divulgados) do Fundo Aeroespecial: “é um projeto bem específico, mas queremos ajudar a Embraer a construir um modelo próprio de indústria 4.0. Era nosso sonho ter um projeto desses, porque também ajudamos o Brasil a desenvolver uma tecnologia estratégica”.

Marcos Santos e Joni Hoppen, fundadores da Aquarela: inspiração em canções de Ary Barroso e Toquinho para desenvolver uma tecnologia estratégica para o Brasil. / Foto: Divulgação

Brasilidade tecnológica

Ter – e defender – a identidade brasileira é algo levado muito a sério na empresa. O nome da startup, inclusive, remete à clássica “Aquarela Brasileira”, de Ary Barroso e também à “Aquarela” do violonista e compositor Toquinho. O insight veio quando Joni e Marcos estudavam arquitetura empresarial. “Tudo o que você desenha gera artefatos. Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. Aí a gente percebeu que nessa letra do Toquinho estão todas as fases da inovação: o desenho, a utilização, o menino no caminho enxergando um muro, que representa todos os dilemas que você tem que enfrentar, até o momento que os artefatos precisam se descolorir. Faz parte do processo de inovação abrir mão de uma tecnologia para adotar outras e incorporamos isso como um dos princípios da empresa”.

A experiência de Joni na Holanda, onde fez mestrado em Sistemas de Informação, acabou servindo para aprofundar o sentimento de identidade nacional incorporado à Aquarela. “Quando eu estava lá fazia muitas palestras sobre o Brasil, estudei bastante para também apresentar a eles. A Holanda é o oposto da gente em tudo: população, educação, território e isso gerou um conhecimento interessante sobre o meu país. Quis voltar e montar uma empresa bem brasileira”.

Por volta de 2012, Joni e Marcos começaram a estudar uma das avançadas tendências tech de então, a web semântica, uma extensão da internet para permitir que computadores e humanos trabalhassem em cooperação. Mas a ideia era considerada muito avançada para a época e não havia mercado para a solução. A saída foi começar a simplificar e usar alguns poucos algortimos para mineração de dados. Era 2013 quando Marcos, após uma série de testes e implementações, conseguiu desenvolver uma equação que resolvia um problema matemático sobre algoritmos levantado em 1936 por Ronald Fischer. “O que nós desenvolvemos trouxe novas frentes na área de mineração de dados. A gente podia ter publicado isso num artigo científico mas daí resolvemos criar uma empresa. Essa descoberta se tornou nosso segredo industrial, o coração da plataforma”, detalha Joni.

Batizada de VORTX, a plataforma que usa inteligência artificial para análise de grande volume de dados tem servido não só para negócios mas também para trabalhos voluntários, como os estudos feitos para a Operação Serenata de Amor, projeto que usa dados abertos para combater práticas ilegais no setor público brasileiro – como o gasto indevido de verbas por deputados federais. Em outros estudos, a Aquarela apresentou um ranking de uso do dinheiro público por deputados, partidos e estados da federação, além de uma análise sobre o índice de suicídios dentro das estatísticas oficiais de óbitos, ação que foi parte do engajamento da empresa na campanha Setembro Amarelo.

Com tamanho potencial de aplicação de data analytics, não deveria faltar demanda no mercado por tal solução, certo? Mas não é bem assim.

“A barreira de entrada é a falta de cultura de dados nas empresas nacionais”, afirma Daniel Heller, o mais recente sócio da Aquarela e que está à frente do departamento comercial. Entre as empresas nacionais que usam a plataforma estão Algar Telecom, Benner Sistemas, Flex Contact Center, entre outras. O custo médio mensal do serviço varia de R$ 15 mil a R$ 20 mil e envolve capacitação e consultoria para uso da plataforma.

“O problema não é preço do serviço, mas a percepção de necessidade por parte das empresas, esse é nosso grande desafio.  Falta planejamento na área de dados, pensar pra frente. Quem vai pro Vale do Silício hoje volta com a certeza que data science é uma das tendências de mercado mais importantes do momento”, cita Daniel, que foi durante 15 anos sócio de uma empresa de projetos de infraestrutura de TI, a Teltec Solutions, e entrou na Aquarela em março.

Hoje, a empresa conta com 12 pessoas na equipe, das quais quatro são sócios. O crescimento previsto para 2017 é de 300% e, com os recursos do Fundo Aeroespacial, esperam ampliar a equipe para até 20 pessoas e fazer de 2018 o ano de decolar: “queremos aumentar bastante nossa presença no Brasil no ano que vem. Só depois vamos pensar no mercado externo”, comenta Joni.  Para ele, o pulo do gato é “usar a inteligência artificial para ajudar a descobrir coisas que você não descobriria só no olho. Os algoritmos então podem ser usados como uma prótese cognitiva para ajudar a encontrar as agulhas no palheiro”.

É como diz a letra de Toquinho, que ainda tem muito a inspirar em um futuro tecnológico completamente aberto e incerto:

nessa estrada não nos cabe conhecer
ou ver o que virá
o fim dela ninguém sabe bem ao certo
onde vai dar“.