O futuro dos ecossistemas de inovação depende de novas lideranças

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O futuro dos ecossistemas de inovação depende de novas lideranças

“As atuais lideranças nos ecossistemas de inovação não irão durar para sempre. É preciso pensar no futuro próximo”, comenta Marcus Rocha.

As atuais lideranças nos ecossistemas de inovação não irão durar para sempre – e pode ser que também desejem trabalhar voluntariamente apenas durante um tempo definido. É preciso pensar no futuro próximo. / Imagem: Hunters Race (Unsplash)


[10.05.2022]


Por Marcus Rocha, empreendedor e colunista SC Inova.
Escreve quinzenalmente sobre ambientes e ecossistemas de inovação   

Dois pontos fundamentais para o sucesso de ecossistemas de inovação são a governança, para a definição de estratégias, e a orquestração, para a mobilização de diferentes atores que precisam executar diferentes ações que realizam a execução das estratégias definidas. No final das contas, isso tudo deve se traduzir na promoção do empreendedorismo inovador de forma sistemática, em quantidade e com qualidade.

Portanto, é fundamental que os ecossistemas de inovação desenvolvam lideranças. São pessoas que participam voluntariamente em diferentes frentes de trabalho, com o objetivo de ajudar o ecossistema a se desenvolver. Destaca-se que esses líderes não são 100% dedicados ao trabalho voluntário, afinal de contas muitos possuem atividades remuneradas. 

No entanto, percebem que, ao trabalhar de forma voluntária em prol do ecossistema local, ajudam a criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo inovador, o que beneficia toda uma comunidade local de empreendedores, incluindo aqueles empreendimentos dos próprios voluntários e voluntárias, sejam eles privados, públicos, acadêmicos, ou da sociedade civil.

No entanto, ao visitar diferentes ecossistemas de inovação, em Santa Catarina e em outros Estados do Brasil, percebe-se um desafio comum: são sempre as mesmas lideranças que aparecem nos diferentes eventos e iniciativas promovidas em cada localidade. Percebe-se nesse cenário um problema que necessita ser tratado com uma certa urgência.

A sucessão é um assunto importante em quase todas as organizações. Por mais que os ecossistemas de inovação não sejam estruturados da mesma forma, pois não possuem um CNPJ e nem uma estrutura hierárquica bem definida, é necessário pensar no futuro. Isso é necessário porque as atuais lideranças não irão durar para sempre, e pode ser que também desejem trabalhar voluntariamente apenas durante um tempo definido.

Mas como criar uma estratégia de sucessão para as estruturas de governança e de orquestração dos ecossistemas de inovação? 

Talvez o primeiro passo seja desenvolver uma cultura local de valorização do trabalho voluntário em prol de um melhor ambiente para o empreendedorismo. É necessário compartilhar a percepção de que o voluntariado também gera suas recompensas, que não são financeiras, mas que podem ser valiosas, pois os voluntários líderes acabam tendo maior notoriedade e aumentam significativamente suas redes de contatos.

Outra iniciativa importante é criar espaços para as pessoas que estejam interessadas em trabalhar para o ecossistema. Muitas vezes as atuais lideranças não percebem que estão criando barreiras para que outras pessoas possam participar também. Então é necessário criar espaços tanto em áreas que já estão desenvolvendo trabalhos com sucesso, quanto naquelas que precisam ainda ser construídas. Nesse sentido, relembro aqui o artigo anterior, com a necessidade que a maior parte dos ecossistemas têm para integração das empresas estabelecidas.

Como qualquer outro tipo de trabalho, para que seja executado com qualidade o voluntariado exige um determinado conjunto de competências que precisam ser desenvolvidas. Portanto, é recomendável também a criação de programas de mentoria e/ou de capacitação para o aprendizado das pessoas interessadas em serem as futuras lideranças do ecossistema local de inovação. Novamente, o papel dos atuais líderes é fundamental nesse sentido.

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É necessário fazer com que a participação nas estruturas de governança e nas ações de orquestração dos ecossistemas sejam efetivamente inclusivas. Frequentemente são ouvidos relatos de pessoas que se colocaram à disposição e tentaram participar, mas que não conseguiram encontrar espaços para tal. Isso inclusive cria um desestímulo à participação das pessoas.

Portanto, é preciso derrubar todas as barreiras, visíveis e invisíveis, à participação de pessoas interessadas em cooperar com as iniciativas atuais dos ecossistemas. Nas reuniões e eventos presenciais, as portas devem estar sempre abertas e os convites precisam ser enviados ao máximo de pessoas. As novas pessoas precisam ser devidamente acolhidas e incluídas. O vocabulário utilizado precisa ser mais acessível, de forma que seja compreendido por todos, não apenas pelos já “evangelizados”. As ideias e sugestões precisam ser efetivamente ouvidas e endereçadas. As iniciativas de novas ações precisam receber maior apoio. E por aí vai.

Dessa forma, é possível criar um ambiente favorável à perpetuação do ecossistema de inovação, com um volume constante de voluntários, disponíveis e dispostos em quantidade e com qualidade e, parafraseando John F. Kennedy, praticando o seguinte: “não pergunte o que o seu ecossistema de inovação pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu ecossistema de inovação“.

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