[Cultura Digital] Drones e a revolução do EU digital

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[Cultura Digital] Drones e a revolução do EU digital

Do uso militar até a entrega de alimentos e a gestão da agricultura, os drones evidenciam como a evolução tecnológica muda a nossa forma de pensar e viver.

Do uso militar até a entrega de alimentos e a gestão da agricultura, os drones evidenciam como a evolução tecnológica muda a nossa forma de pensar e viver.


[07.08.2020]

Por Alexandre Adoglio*

Uma das características de um mundo em transformação é que a forma de pensar das pessoas muda conforme a interface delas com as tecnologias que vão surgindo.

O primeiro uso de pólvora se deu quando os chineses Jin precisaram se defender das hordas mongóis de Gêngis Khan no cerco a sua capital, em rudimentares canhões que lançavam bolas de pedra nos invasores. Embora tendo perdido esta guerra, a tecnologia dos Jin foi aos poucos assimilada pelos mongóis e outros povos, porém o mais notado é que demorou mais de 100 anos para utilizarem a pólvora para outros fins que não fosse o de explodir o inimigo. 

O uso de drones de forma mais ampla vem ocorrendo aos poucos, devido ao custo para desenvolvimento da tecnologia e as limitações impostas pela legislação cada vez mais atenta aos problemas que uma nova tecnologia pode causar se mal empregada. 

Inicialmente desenvolvidos como aparato militar desde a Primeira Guerra Mundial, os drones foram testados ao longo de décadas como mecanismos de assalto e defesa, porém somente na década de 1960 os VANTs (veículos aéreos não tripulados) começaram a ser amplamente utilizados para reconhecimento de terrenos e servindo como apoio e meio de ataques e espionagem.

O maior desafio foi capacitar os pilotos para lidar remotamente com os aparelhos, modificando amplamente o entendimento de como se vai ao campo de guerra.

E desde este início o maior desafio foi capacitar os pilotos para lidar remotamente com os aparelhos, modificando amplamente o entendimento de como se vai ao campo de guerra. Um soldado não precisa mais estar no front para lutar por seu país, impactando de forma profunda o entendimento psicológico e subjetividades que precisam ser empregadas para treiná-los.

Fora desta discussão ética, o uso de drones ultrapassou em muito a fronteira militar nas últimas décadas, sendo empregados de várias formas e modificando de forma definitiva nosso entendimento de algumas práticas profissionais e de lazer. Já é comum o uso de drones na produção publicitária em geral, fotos e vídeos, cinema, esporte e jornalismo, com equipamentos se tornando olhos das narrativas e colocando a cobertura de imagens em situações antes impossíveis, como um ataque de falcão.

Porém a grande inovação dos drones chegou mesmo para ampliar nossa forma de trabalhar.

Na indústria petrolífera, empresas como Shell, BP e Statoil já utilizam serviços da Sky Futures para mapear e inspecionar a produção de petróleo em plataformas marítimas, diminuindo em muito o risco de acidentes de trabalho e otimizando o tempo para análises que antes eram feitas manualmente.

Na engenharia a aplicação dos drones é feita em inspeções, laudos e monitoramento de grandes obras, substituindo de forma eficaz e econômica os guindastes e andaimes. Além de possuírem capacidade inigualável para Fotogrametria e Topografia, captando com extrema qualidade grandes áreas de forma detalhada, possibilitando o mapeamento em 3D de edificações, com esta do Museu do Ipiranga, em São Paulo.

Drones para os negócios: uso fundamental para engenharia, publicidade e proteção ambiental, por exemplo.

E visando a proteção ambiental, entidades do mundo inteiro utilizam-se dos VANTs para mapear a vida selvagem, em locais como Malásia e Indonésia, por meio de iniciativas como a Conservation Drones, que busca compartilhar conhecimentos sobre a construção e o uso de veículos aéreos não tripulados de baixo custo para aplicações relacionadas à conservação com trabalhadores e pesquisadores, especialmente nos países em desenvolvimento.

DELIVERY DESCOMPLICADO EM TEMPOS REMOTOS

Apresentado no ano passado, o drone de entregas da Amazon, o Prime Air, é concebido para efetuar entregas de forma rápida, cobrindo 24km em 30 minutos, com capacidade para até 2,2 quilos de encomenda. E inúmeros testes já ocorreram mundo afora, como a floricultura FlowerDeliveryExpress.com, que experimentou as primeiras entregas por drones já em 2014. Uma pizzaria em Mumbai usou os drones para levar comida a fregueses em um arranha-céu, e uma lavanderia na Filadélfia para devolver roupas depois de limpas.

No Brasil, o iFood recebeu aval da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para voos experimentais com drones, com licença de operação em modelo híbrido. Esta tecnologia será empregada na primeira etapa da entrega que será finalizada por um entregador com moto, bike ou patinete.

Mas provavelmente o mercado mais impactado pelo uso de drones foi da agricultura, tracionando startups a escalarem seus negócios com rapidez em vários tipos de cultura.  A Agrizze, de Joinville, atua há quatro anos pulverizando plantações via drone, tendo captado atenção de vários fundos de investimento que notaram grande potencial neste mercado. Já a Horus, de Florianópolis produz equipamentos para uma infinidade de usos, com drones capazes de realizar mapeamentos por grandes extensões para suporte na produção mineral e silvicultura por exemplo.

Serviço da Amazon, o Prime Air consegue cobrir 24 km de entregas em 30 minutos.

PSICOLOGIA DO PENSAMENTO REMOTO 

Voltando às questões de comportamento, o uso de drones vem transformando a maneira de pensar de seus utilizadores, por vezes de forma ruim como a demissão em massa dos soldados americanos após as primeiras intervenções de VARs no Oriente Médio, provocando uma revisão na metodologia de treinamento para uso dos veículos autônomos.

Embora seja uma profissão já regulamentada pela ANAC no Brasil, as habilidades para piloto de drone são constantemente colocadas à prova nas aplicações que vão surgindo, modificando este interface com o usuário a todo momento devido as necessidades de cada uso. Persistência, responsabilidade e bom senso são algumas das características necessárias, além é claro de uma ótima coordenação óculo-manual.

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Reforçando a questão do mindset, temos o cineasta James Cameron, pioneiro nesta área com utilização de drones para captação de cenas do Titanic, derivando para produção do filme homônimo e um documentário premiado. Cameron, além de incentivar o desenvolvimento de drones para o mercado, comentou em entrevistas que dirigir as imagens subaquáticas através de drones foi algo revelador, quase uma extensão de si mesmo. Desta experiência nasceu a criação do principal personagem do longa Avatar, um soldado paraplégico que consegue controlar um “drone biológico alien” no premiado longa.

Avatar em hindu é a descida de um ser divino à terra, em forma materializada [Particularmente cultuados pelos hindus são Krishna e Rama, avatares do deus Vixnu; os avatares podem assumir a forma humana ou a de um animal]. Para nós um processo metamórfico, transformação, mutação.

É de se pensar o quanto ainda teremos de evolução no uso da tecnologia remota, promovendo cada vez mais o nosso eu para fora de nós mesmos.


* ALEXANDRE ADOGLIO é CMO na Sonica e empreendedor digital.
Escreve semanalmente sobre Cultura Digital para o SC Inova.

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