[Cultura Digital] A internet como trincheira das “sociedades secretas”

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[Cultura Digital] A internet como trincheira das “sociedades secretas”

A web é o epicentro de grupos obscuros que a utilizam como meio de se promover e se relacionar com seus membros, distorcendo a realidade com seus preceitos e normas que visam cooptar pessoas pelo viés do medo.

A web é o epicentro de grupos obscuros que a utilizam como meio de se promover e se relacionar com seus membros, distorcendo a realidade com seus preceitos e normas que visam cooptar pessoas pelo viés do medo.


[16.04.2021]


Por Alexandre Adoglio, CMO na Sonica e empreendedor digital. Escreve semanalmente sobre Cultura Digital para o SC Inova 

Em janeiro de 2012 um tópico do fórum 4chan apresentou um intricado quebra-cabeças, dividido em etapas, com a seguinte mensagem: 

“Olá, estamos à procura dos mais inteligentes indivíduos. Para encontrá-los, criamos um teste. Há uma mensagem escondida nessa imagem. Encontre-a e você será guiado para onde estamos. Estamos ansiosos para conhecer os poucos que conseguirão desvendar o teste. Boa Sorte. 3301”

Criada por um grupo chamado Cicada 3301, a mensagem a princípio não foi levada a sério, sendo desvendada por alguns poucos que criptografaram a imagem no bloco de notas e foram levados a outros desafios. Até que, diz-se a lenda, os dados criptografados levavam a coordenadas GPS pelo mundo inteiro, que continham códigos para acesso a um site de quarta camada na deep web. Após os primeiros acessos o site saiu do ar e quem lá conseguiu se cadastrar recebeu um e-mail com um último desafio. Conta-se que quem conseguiu resolvê-lo nunca mais foi visto, presumindo-se que foram recrutados pela organização.

Tido como “o enigma mais elaborado e misterioso da era da Internet” e listado como um dos “5 maiores mistérios não resolvidos da internet” pelo The Washington Post, ainda se especula muito em relação à sua finalidade, alguns acreditando ser um quebra-cabeças de recrutamento para a Agência de Segurança Nacional (NSA), a Agência Central de Inteligência (CIA) ou um grupo cibernético mercenário.  

A segunda rodada começou um ano depois, em 5 de janeiro de 2013 e uma terceira rodada após a confirmação de uma nova pista postada no Twitter em 5 de janeiro de 2014. Nenhum novo quebra-cabeça foi publicado em 5 de janeiro de 2015 e por fim o último foi publicado no Twitter em 5 de janeiro de 2016, tendo até um fórum dedicado a decifrá-lo. História que tenta ser contada nesta produção recém chegada ao streaming.

Um dos “maiores mistérios não resolvidos da web” em um streaming perto de você

Terreno fértil para conspirações aleatórias e suposições sem o menor fundamento, a internet passou a ser o epicentro das ditas sociedades secretas, que a utilizam como meio de se promover e se relacionar com seus membros, pagantes ou não, distorcendo a realidade com seus preceitos e normas que visam cooptar pessoas pelo viés do medo, da exclusividade e dominância.

BABOSEIRA LITERÁRIA E A REALIDADE

Os Illuminati se consideram “uma organização de elite de líderes mundiais, autoridades empresariais, inovadores, artistas e outros membros influentes deste planeta”. Se comportam como uma empresa de relações públicas que atende a “influenciadores planetários”, como movimentos religiosos, corporações globais e chefes de estado. Embora o site da organização seja bem feito, fato é que nenhum dos seus endereços de fato existe, pois tudo não passa de fachada real para os trâmites virtuais.

Em uma sociedade cada vez mais digital, a presença online dos grupos e sociedades secretas passa a ser fundamental em vários aspectos da sua funcionalidade. Os Illuminati são apenas um exemplo de sociedade não mais realmente secreta que atrai atenção online com um site e uma empresa de Relações Públicas (embora falsa). 

Acontece que os verdadeiros webmasters são os maçons, uma das organizações fraternais internacionais mais antigas e famosas. Hoje, em praticamente todo o mundo, os maçons operam como uma empresa pública que, por acaso, tem alguns rituais estranhos. Segundo alguns, é uma tentativa de resolver um “problema de relações públicas de séculos”, que é agravado pela percepção pública de que os maçons são apenas um estranho grupo de velhos que gostam de usar fantasias. Em suma, os maçons precisam parecer racionais e relevantes. Mas se eles forem vistos como muito chatos, eles correm o risco de alienar membros em potencial seduzidos pelo glamour de tudo isso. 

Em uma sociedade cada vez mais digital, a presença online dos grupos e sociedades secretas passa a ser fundamental em vários aspectos da sua funcionalidade.

Daí que o on-line tem sido ponto de apoio para muitas ações, pois um problema de imagem pode ser solucionado tornando tudo mais aberto porém com conteúdos acessíveis somente aos iniciados.

PIRÂMIDE SECRETA OU PICARETAGEM?

Tudo começou com uma mensagem no Facebook de um morto, um certo Ernest Howard Crosby e sua foto de perfil mostrava um retrato antigo de um homem com um colete elegante e uma espessa barba da Guerra Civil. A mensagem veio em nome da Eucleian Society da Universidade de Nova York, um clube literário formado em 1832 na mesma época em que sociedades secretas começaram a brotar nos campi universitários em todo o país, e continha o seguinte:  “A Sociedade está interessada em sua associação em potencial e gostaria de convidá-lo a aprender mais … O tempo é essencial.”

Direcionando para um grupo do Facebook, o convidado precisava preencher um formulário para ingressar na tal sociedade, que perguntava sobre origens, visões políticas e ideologias religiosas. Em seguida os convidados receberam um e-mail em massa sob o pseudônimo de “John S. / Odysseus” se apresentando como membro sênior da sociedade e chefe de seus esforços de recrutamento. Solicitou a todos várias tarefas incluindo uma lista de links para mais de uma dúzia de páginas do Blogspot, vídeos do YouTube e Grupos do Google, todos os quais eram solicitados a ler e absorver “o mais rápido possível”. 

Porém alguns dos envolvidos logo perceberam que tudo aquilo tinha um público muito bem definido, os alunos da prestigiosa New York University, que estavam recebendo convites da tal Eucleian sob um conceito de “sociedade para poucos escolhidos”, que deveriam debater o futuro da humanidade em seus encontros virtuais e presenciais. Em pouco tempo alguns dos novos membros começaram a receber uma “fatura” por e-mail, que cobrava módicos U$ 600,00 anuais como contribuição voluntária para salvar a humanidade.

Você já foi convidado para participar de uma pirâmide hoje?

GOSTARIA DE TE CONVIDAR PARA UMA REUNIÃO DO GRUPO…

Muitas sociedades tidas como secretas nasceram por necessidades de seus membros no período de sua fundação. Os maçons começaram com um grupo de pedreiros ultra-especializados que se uniram para guardar seus segredos da construção e tabelar o preço dos serviços, criando provavelmente a primeira reserva de mercado da história. No Brasil temos a TFP (Tradição, Família e Propriedade) criada pelo líder intelectual católico Plinio Corrêa de Oliveira, desde o final da década de 1920 e que hoje se apoia seriamente em ações on-line para promover sua doutrina. Tida como uma organização católica radical, foi alvo de investigação recente quando uma instituição da Polônia remeteu milhares de euros em suporte para ações durante a pandemia.

Uma outra vertente de sociedade secreta on-line recém descoberta causou espanto nas autoridades, quando uma denúncia anônima levou a grupos que apoiavam a anorexia e aversão a si mesmo, levando inúmeras pessoas a se auto-mutilarem e tentarem o suicídio.

Seguindo o mesmo conceito forjado por estas sociedades temos os esquemas de marketing de pirâmide, que amplamente se utilizam de ações online, principalmente em redes sociais, tanto para captar novos usuários como também para promover sucesso entre o network a que pertencem. Amway, Herbalife… e tantas outras, modelo de negócio que já foi alvo de John Oliver em um controverso episódio do seu programa.

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Antes da Internet, as sociedades secretas frequentemente cobriam seus rastros com fogo. Eles queimavam documentos indesejados e, se a destruição não fosse uma opção, eles riscavam nomes ou referências vulneráveis de registros físicos. Para a maioria das sociedades existentes hoje, cobrir seus rastros online pode ser bem mais fácil – tão simples quanto pressionar um botão para “Excluir” ou “Bloquear usuário” – mas também é menos completo pois tudo na internet deixa alguma marca.

Dada a facilidade com que a Internet torna a criação de novos movimentos, ideias, ambientes e fachadas, que representam todos os tipos de identidades, podemos mesmo ter certeza sobre com quem estamos lidando ou quem está nos conduzindo?


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