Turismo, educação e tecnologia: veja como municípios catarinenses desenvolveram soluções inovadoras

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Turismo, educação e tecnologia: veja como municípios catarinenses desenvolveram soluções inovadoras

De projetos complexos a simples aplicações, ideias de destaque como a incubadora de Luzerna serão apresentadas durante o Congresso de Prefeitos, que começa na segunda (11.06) em Florianópolis

De projetos complexos a simples aplicações, ideias de destaque como a incubadora de Luzerna serão apresentadas durante o Congresso de Prefeitos, que começa na segunda (11.06) em Florianópolis

No meio-oeste catarinense, a pequena cidade de Luzerna (foto) se tornou uma referência para desenvolvimento de soluções de tecnologia para empresas da região – e também para criação de novos negócios. O município, que tem pouco mais de seis mil habitantes, emplacou neste ano seis projetos entre os 102 selecionados no programa Sinapse da Inovação, que estimula e dá recursos para startups catarinenses. Isso representa quase a metade dos 14 projetos selecionados de toda a região Oeste do estado. Todos os aprovados, que agora receberão recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do governo de Santa Catarina (Fapesc), estão desenvolvendo seus projetos na Incubadora Tecnológica de Luzerna, um projeto público que iniciou em 2010 e que já ajudou a criar 17 empresas. Muitas delas desenvolvidas por jovens que, a partir do oitavo ano na rede pública, começam a experimentar formações técnicas em diversas áreas: desde as mais tradicionais e que são a vocação do município, como metalmecânica e elétrica, até mais aplicadas à tecnologia, como programação, robótica e mecatrônica – sempre no contraturno escolar.

“Na incubadora são todos pratas da casa” afirma o prefeito de Luzerna, Moisés Diersmann, prefeito de Luzerna desde 2013. Esta oportunidade, segundo ele, tem freado o êxodo de estudantes para o litoral e despertado o interesse de municípios vizinhos, que começaram a mandar jovens para a cidade e a tentar replicar a iniciativa. “A partir do nono ano, o aluno começa a focar em uma das áreas oferecidas. Muitos ficam um ano inteiro desenvolvendo aplicativos. Com 14, 15 anos o gosto por uma nova habilidade é muito grande. Aí com 17 anos muitos já querem empreender”, comenta.

Além disso, as inovações desenvolvidas na incubadora pública ajudaram a dar competitividade na indústria local. “Hoje em dia médicos aqui da região pedem máquinas que os empreendedores e estudantes de engenharia aqui desenvolvem”. É o caso de um dos projetos aprovados no Sinapse neste ano, um braço robótico para auxiliar em cirurgias, que foi desenvolvido pelo estudante Robison Wille, que cursa Engenharia de Automação no Instituto Federal e que terá como parceiro comercial uma empresa da própria cidade, que atua na área de TI para hospitais.

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A apresentação da incubadora de Luzerna encantou prefeitos de várias regiões do estado durante congresso promovido em 2017 pela Federação Catarinense de Municípios (Fecam), que começaram a fazer visitas à cidade para conhecer a iniciativa. “A partir disso, surgiu a ideia de criar um banco de dados com diversas soluções desenvolvidas nos municípios do estado e que pudessem ser acessadas por todos os gestores públicos”,  comenta Gilsoni Lunardi Albino, diretor executivo do Consórcio de Informática e Gestão Pública Municipal (CIGA) de Santa Catarina.

Em maio deste ano, a entidade lançou o prêmio Soluções Inovadoras, com o objetivo de receber das prefeituras exemplos de ações que fizeram a diferença no atendimento à população – várias delas, focadas especialmente nas áreas de Gestão Eficiente e Cidades Inteligentes, serão apresentadas durante o Congresso de Prefeitos, que a Fecam promove entre os dias 11 e 14 de junho, em Florianópolis. A resposta dos municípios ao prêmio surpreendeu os organizadores: em um mês de inscrições abertas, foram enviadas 90 projetos já em operação em várias regiões do estado. “Achávamos que a adesão seria mais lenta, mas recebemos muitas soluções. São desde projetos mais simples, praticamente sem custos a outras mais robustas. E isso é importante para que os prefeitos vejam que muitas coisas podem ser implementadas sem precisar de muito esforço ou recursos”, comenta Gilsoni.

Vários municípios, lembra o diretor do CIGA, começaram a utilizar redes sociais como o WhatsApp para se comunicar de maneira mais rápida com a população e identificar demandas mais emergenciais. É o caso do BiguaZap, lançado em dezembro do ano passado pela Prefeitura de Biguaçu, na Grande Florianópolis, que disponibilizou números de todas as secretarias municipais para que os moradores enviassem informações, sugestões e críticas.

Turismo e Escola Inteligente

Entre outras iniciativas mais estruturadas, que serão destaque no Congresso de Prefeitos, está a criação dos Destinos Turísticos Inteligentes, iniciativa desenvolvida pelo consórcio ligado à Associação dos Municípios da Foz do Rio Itajaí (Amfri) em parceria com o Sebrae/SC. A ideia é integrar 10 cidades da Costa Verde Mar com soluções de tecnologia para levar aos turistas informações sobre os principais roteiros, destinos e infraestrutura hoteleira e de serviços. Por meio de beacons instalados nos principais pontos turísticos, o visitante recebe diretamente no celular notificações úteis para o passeio – como contrapartida, a gestão pública da região consegue ter informações precisas sobre quais foram os destinos mais procurados, quais tiveram mais retornos e quanto tempo os turistas ficam nos locais.

Tecnologia leva informações aos turistas que visitam os roteiros da Costa Verde Mar, entre Piçarras e Bombinhas (foto).

O serviço está disponível no trecho litorâneo entre Piçarras e Bombinhas – um dos mais visitados do estado durante a temporada de verão – e também nas cidades de Ilhota e Camboriú. São utilizados 80 beacons, ao custo anual de R$ 30 mil, em toda a região.

O projeto, segundo Vivian Floriani, assessora técnica do consórcio, começou a ser desenvolvido em 2017 e entrou em operação no início deste ano. “Nestes primeiros meses, já impactamos mais de 80 mil pessoas”, calcula Vivian, “mas este é apenas parte do projeto. Vamos desenvolver também outras ações, como um inventário turístico e um plano estratégico de marketing para agregar valor à experiência dos visitantes”.

O foco agora está na divulgação do projeto em diversas feiras de negócios turísticos, em que a equipe leva óculos de realidade virtual para simular uma viagem pela região – que por sinal, foi uma das pioneiras no país no uso de tecnologia para os turistas: em 2010, já havia sido instalado um totem de atendimento eletrônico de serviços.

Mas não é só a tecnologia que ajuda a mudar a realidade nos municípios. Em Itajaí, por exemplo, uma iniciativa inovadora no trato com estudantes e famílias tem se tornado uma referência para as redes municipais de ensino. É a “Escola da Inteligência”, proposta desenvolvida pelo psiquiatra e escritor Augusto Cury e que busca o desenvolvimento da inteligência, saúde emocional e construção de relações saudáveis – foi o prefeito Volnei Morastoni que tomou conhecimento da ideia e levou à cidade no ano passado. Em 2018, já está sendo aplicada em 31 unidades de ensino, atingindo 12,3 mil alunos e familiares neste ano.

Escola da Inteligência, em Itajaí, atende mais de 12 mil jovens e famílias e tem como objetivo desenvolver saúde emocional e tirar os jovens de situações de risco. / Foto: Marcos Porto

A metodologia passa pela utilização de livros, que são acompanhados tanto por estudantes quanto pelos pais, e estimulam processos de fortalecimento da saúde emocional, hábitos e vontades pessoais. “Não é só o professor que passa o conhecimento. Envolvemos mais as famílias com o objetivo de gerenciar emoções, estimular a criatividade, confiança, auto-estima, altruísmo e assim reduzir o estresse e problemas como depressão e bulying”, detalha Kátia Teixeira de Souza, orientadora educacional da rede municipal e coordenadora da Escola da Inteligência em Itajaí. Uma pesquisa realizada no final do último ano letivo apontou que 98% dos pais, 99% dos professores e 95% dos alunos estavam satisfeitos com o programa.  

Segundo Kátia, a depressão entre jovens e o surgimento de comportamentos que indicavam tendências suicidas eram um dos maiores problemas identificados nas escolas. “Se você fortalece a saúde emocional de um jovem de 14 a 16 anos, por exemplo, isso abre novos campos para ele, que começa a procurar emprego e estágio, descobre algo que gosta  de fazer. Antes eles não estavam preparados para isso”, comenta a coordenadora. O aumento do absenteísmo de professores, em função de doenças emocionais e síndrome de pânico, também foi fator de preocupação na prefeitura.

Na visão de Volnei Morastoni, prefeito de Itajaí e presidente da Fecam, qualquer cidade que pretende se tornar uma referência em inovação precisa investir massivamente em educação, repensando formas de desenvolver os jovens de acordo com cada realidade local. “E isso precisa ser feito desde o ensino fundamental. É um dever formar novas gerações que estejam preparadas para se inserir neste mercado de tecnologia”, opina.

A programação completa do Congresso de Prefeitos, que está com inscrições abertas e gratuitas, está disponível neste link.