Trata-se de um modelo algorítmico que coleta, analisa e propõe decisões com base em dados e padrões que escapam à nossa percepção. É a promessa de uma inteligência que complementa, e não substitui, nossas habilidades. / Imagem: DALL-E/SC Inova
[02.12.2024]
Por Eduardo Barbosa, CEO da Brognoli Imóveis e um dos responsáveis pelo Conselho Mudando o Jogo (CMJ) em SC e RS. Escreve sobre inteligência artificial no ambiente corporativo na série “Diários de IA”.
Em um mundo onde decisões moldam o sucesso de empresas, governos e indivíduos, a inteligência artificial (IA) emerge como o mais poderoso aliado da humanidade.
Não estamos mais apenas automatizando tarefas; estamos transformando a maneira como pensamos, aprendemos e decidimos. Neste sentido, a interseção entre IA e Economia Comportamental é terreno fértil de descobertas, revela que a tecnologia pode ser mais do que uma ferramenta: ela pode se tornar uma extensão do nosso pensamento.
UMA REVOLUÇÃO EM DECISÕES: DO HUMANO AO ALGORITMO
Daniel Kahneman, em sua obra-prima “Rápido e Devagar”, mostrou que somos governados por dois sistemas cognitivos:
- Sistema 1: Intuitivo, rápido, mas frequentemente enviesado.
- Sistema 2: Lento, deliberativo, mas custoso e nem sempre confiável.
Agora, um terceiro sistema começa a surgir. Esse “Sistema 3” não é humano, mas algorítmico. Ele coleta, analisa e propõe decisões com base em dados e padrões que escapam à nossa percepção. É a promessa de uma inteligência que complementa, e não substitui, nossas habilidades.
Pense em uma empresa enfrentando uma decisão estratégica: reestruturar sua cadeia de suprimentos em meio a uma crise global.
- O Sistema 1 dos gestores pode reagir com pânico;
- O Sistema 2, sobrecarregado de dados e opiniões, pode demorar.
- O Sistema 3, no entanto, modela cenários, elimina vieses e sugere soluções otimizadas. Não há emoção, apenas análise.
A Economia Comportamental ensina que nossas decisões são moldadas por heurísticas e vieses — atalhos mentais que nem sempre nos levam ao melhor caminho.
E se pudéssemos neutralizar essas influências? É aqui que a IA brilha.
1. VIESES COGNITIVOS SOB CONTROLE
- Ferramentas de IA podem identificar padrões prejudiciais. Imagine uma equipe de marketing planejando uma campanha. Historicamente, decisões baseadas em “intuições” podem levar a ancoragens erradas ou suposições tendenciosas. Um sistema de IA avalia dados de mercado em tempo real, apontando escolhas mais eficazes e alinhadas com os desejos do consumidor.
2. SISTEMAS DE MULTIAGENTES:
- Uma Nova Dinâmica: Sistemas de multiagentes, vão além de simplificar decisões. Eles criam simulações de comportamentos humanos em ambientes complexos, inspirados pela Teoria dos Jogos. Empresas podem modelar interações com stakeholders, prever reações e ajustar estratégias antes mesmo de colocá-las em prática
3. ENGENHARIA DE PROMPTS:
- Um Salto de Empatia: A engenharia de prompts é mais do que uma inovação técnica; é uma nova forma de comunicar. Modelos de linguagem como GPTs podem personalizar interações, tornando mensagens corporativas mais persuasivas, autênticas e alinhadas ao comportamento humano.
O sucesso depende da aplicação prática. Aqui estão dois frameworks essenciais:
AI TEAM CANVAS:
- Delimite tarefas que a IA pode automatizar.
- Identifique áreas onde a criatividade humana é indispensável.
- Estabeleça um ciclo de feedback contínuo entre máquinas e humanos.
CICLO DE ITERAÇÃO COGNITIVA:
- Coleta inicial pelo Sistema 1 (intuição humana).
- Validação pelo Sistema 2 (lógica deliberativa).
- Otimização final pelo Sistema 3 (algoritmo).
Esses frameworks ajudam empresas a integrar IA sem perder a essência humana, criando um ambiente onde tecnologia e pessoas prosperam juntas.
Estamos prontos para delegar decisões críticas a máquinas?
Como proteger a empatia humana em um mundo dominado por eficiência algorítmica?
Quais são os limites éticos do “Sistema 3”?
Essas perguntas não são apenas filosóficas. Elas têm implicações reais para empresas e governos que adotam IA. Amazon e Google já transformam despesas fixas em variáveis, usando IA para ajustar operações em tempo real. Na área de saúde, IA ajuda médicos a diagnosticar doenças raras analisando padrões que escapariam até aos especialistas mais experientes. Em marketing, a IA personaliza campanhas com uma precisão que aumenta conversões e reduz custos.
A IA não veio para substituir humanos, mas para amplificar nossas capacidades. Ela nos permite ver o que está oculto, prever o que é incerto e decidir com uma precisão que antes parecia impossível. No entanto, como qualquer ferramenta poderosa, sua implementação exige ética, supervisão e reflexão estratégica.
Estamos à beira de uma nova era. O “Sistema 3” é mais do que uma ideia futurista; é uma realidade em construção. Como líderes, profissionais e inovadores, precisamos nos perguntar: estamos prontos para usar a IA como uma extensão de nós mesmos?
A resposta a essa pergunta definirá o futuro da inovação, da estratégia e da humanidade.
E você, como está reimaginando decisões na era da IA?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Kahneman, Daniel. (2011). Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux. Tradução: Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva.
- Mohapatra, Hemant. (2024). “AI — O Último Empregado”. Medium. Disponível em: https://medium.com/@MohapatraHemant.
- Kahneman, Daniel; Tversky, Amos. (1979). “Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk”. Econometrica, 47(2), 263-292.
- Berger, Bruno; Pessali, Huáscar Fialho. (2010). “A Teoria da Perspectiva e as Mudanças de Preferência no Mainstream: Um Prospecto Lakatoseano”. Revista de Economia Política, 30(2), 340-356.
- Saullo, Eldes. (2021). Escrita Hipnótica: A Arte de Escrever Textos Persuasivos e Contar Histórias que Instigam. Casa do Escritor.
- Teoria dos Jogos e Estratégia. (2023). Tópicos Especiais de Pesquisa Operacional. Universidade Federal do Paraná.
- Ávila, Flávia; Bianchi, Ana Maria. (2015). Guia de Economia Comportamental e Experimental. EconomiaComportamental.org.
- Pereira, André L.; Amarante, Geizi C. B. (2021). “Tomada de Decisão e Comportamento do Investidor: Uma Análise de Influência de Perfis, Heurísticas e Vieses”. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento.
- Barboza, Pamela Villasanti de Figueiredo. (2017). Os Princípios da Economia Comportamental da Teoria Nudge e a sua Aplicabilidade para a Aposentadoria. Monografia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
- Resumo de “Rápido e Devagar”. (2019). Disponível em: https://lelivros.link.
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