Chegou a vez do carro elétrico brasileiro? A Mobilis, de Florianópolis, está pronta para este mercado

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Chegou a vez do carro elétrico brasileiro? A Mobilis, de Florianópolis, está pronta para este mercado

Após vender as primeiras unidades do seu “veículo de vizinhança”, a startup busca investidores para produzir em escala seu modelo urbano, que deve ser lançado em 2019

Após vender as primeiras unidades do seu “veículo de vizinhança”, a startup busca investidores para produzir em escala seu modelo urbano, que deve ser lançado em 2019 / Foto: Ivor Braga

Nunca se falou tanto sobre dependência do “modal rodoviário” no Brasil quanto nestas últimas duas semanas. A greve de caminhoneiros, que secou parte significativa dos postos de combustíveis no país, também chamou a atenção para outra fragilidade da infraestrutura nacional: a dependência por combustíveis fósseis. A alternativa? Os carros eletrificados (elétricos ou híbridos), que no ano passado venderam mais de um milhão de unidades – mais da metade (580 mil), na China, de acordo com o relatório da Agência Nacional de Energia (AIE).

“A exposição da nossa fragilidade, com essa greve, mostrou claramente que o veículo elétrico está caindo de maduro. Já deveria ser uma alternativa”, afirma Mahatma Marostica, engenheiro mecânico e fundador da Mobilis, startup com sede em Florianópolis que desenvolveu um inédito modelo de carro elétrico 100% nacional, abastecido por uma bateria de lítio (que pode durar até 10 anos) e que roda conectado online com a fábrica – com isso é possível acompanhar o desempenho do veículo em tempo real, além de prever problemas no sistema.

O Li (foto abaixo), que já teve quatro unidades vendidas neste ano, tem preço de R$ 54 mil e consegue rodar 100 quilômetros a um custo de R$ 5. Mas este é o modelo voltado ao mercado de vizinhança (condomínios, indústrias, resorts), feito para rodar em locais controlados e baixa velocidade, já que não tem portas ou ar condicionado. A ideia de criar um modelo para competir com os “carrinhos de golfe” utilizados para circulação em pequenas distâncias foi a maneira que a Mobilis encontrou para entrar em um mercado dominado por multinacionais, que alimentam uma gigantesca cadeia de negócios (concessionárias, oficinas, seguradoras etc.).

“Precisávamos de um modelo beta, como acontece na indústria de software. Nos deparamos com esse mercado dos veículos de vizinhança, que são mais simples, para ir validando o projeto e gerar receita”, diz Mahatma. Mas o modelo de passeio, chamado de Urban Li – que está em processo de homologação terá itens como portas, airbag e freios ABS – deve chegar ao mercado em meados de 2019 custando aproximadamente R$ 65 mil. Mesmo sem ter divulgado pré-venda, há uma lista de 50 interessados em adquirir a versão para rodar na cidade. No atual modelo Li, a montagem não leva mais do que dois dias – o que demora, lembra Mahatma, é a chegada de itens importados, como a bateria, por isso o prazo de entrega ao consumidor é de aproximadamente 90 dias.

Os modelos foram desenvolvidos sob o conceito da Internet das Coisas: a partida é feita por login e o sistema de manutenção está conectado em tempo integral com a fábrica. / Foto: Ivor Braga

A história da Mobilis começa em 2014, quando ele se uniu a outros dois engenheiros,  Thiago Hoeltgebaum e Paulo Bosquieiro Zanetti, que também trabalhavam na indústria automotiva e queriam desenvolver um protótipo de veículo elétrico. Nos dois anos seguintes, começaram a juntar recursos próprios e, no início de 2016, deixaram os empregos para se dedicar totalmente ao projeto. Em seguida, o administrador Marcos Rafael Dal Moro entrou na sociedade. Com apoio de um investimento anjo, a Mobilis começou a acelerar o desenvolvimento de seus protótipos em uma pequena fábrica na Pedra Branca, em Palhoça. O escritório fica em Florianópolis, ao lado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde os primeiros sócios se conheceram.  

A primeira aparição pública do Li foi durante a Campus Party de Salvador, em agosto de 2017. No mesmo período, o Sebrae selecionou a empresa para representar Santa Catarina na Design Weekend, maior evento do setor no país. Os convites para participar em eventos de inovação e mobilidade tem sido frequentes desde então, assim como a apresentação em diversas universidades públicas e privadas do país. Algumas inclusive foram as primeiras clientes do Li e estão utilizando o veículo como base de pesquisas sobre modelos elétricos – a Mobilis inclusive adotou um modelo open source para que os desenvolvedores pudessem contribuir com o projeto.  

Desempenho, manutenção e novos investidores

Os modelos elétricos da Mobilis foram desenvolvidos sob o conceito da Internet das Coisas: a partida é feita por login e o sistema de manutenção está conectado em tempo integral com a fábrica, que analisa o perfil do condutor e auxilia no suporte a eventuais problemas. O display mostra dados como velocímetro, carga da bateria e conta com um aplicativo de gestão de frota.

Na comparação com um veículo com motor à combustão, o elétrico perde em termos de velocidade mas ganha em torque e distribuição. “O que um carro mais precisa, quando anda na cidade, é parada e arrancada. Nisso, o elétrico entrega tudo o que tem de cara. E em termos de manutenção, é até sete vezes mais barato do que um veículo convencional, que chega a ter mais de cinco mil componentes. No nosso são 600”, compara.

A manutenção mereceu um cuidado à parte no desenvolvimento: com exceção de itens ainda sem similar no Brasil, como a bateria, grande parte das peças vem de fornecedores nacionais. E a lógica de atendimento tradicional muda com a conectividade full time do veículo: “qualquer anomalia, problema de temperatura ou tensão é enviada para a empresa, assim podemos fazer diagnóstico e alguns testes à distância. O acompanhamento é mais inteligente e até mesmo personalizado, não tem mais essa de revisão de 10 mil, 20 mil quilômetros”.

Os quatro sócios da Mobilis: o administrador Marcos (à esquerda) e os engenheiros Paulo, Thiago e Mahatma. / Divulgação

O próximo – e decisivo – passo é buscar um investidor para produzir em maior escala. “Decidimos ir ao mercado porque nosso momento é agora, a tecnologia está pronta e o produto é viável”, diz Mahatma. Segundo ele, o processo está adiantado e pode ser anunciado em agosto deste ano, mas ele não antecipa nem o perfil dos investidores ou fundos com quem negociam nem os valores de aporte que estão buscando. “Esse valor varia de acordo com o apetite do investidor. Se buscarmos um sócio interessado no modelo de vendas do nosso produto é uma coisa, mas se ele preferir que a produção seja para aluguel dos veículos as coisas mudam. Há quem aposte que a tendência será a servicificação e outros que acreditam que a propriedade ainda é importante. A mesa de negociação está bem aberta”, resume.

O Brasil é praticamente um mercado “virgem” quando se fala em carros eletrificados. Os nórdicos Noruega, Islândia e Suécia lideram o percentual de emplacamento de híbridos/elétricos (respectivamente 39%, 11% e 6%) em comparação com toda a frota. Mesmo países que estão investindo pesado nestes modelos ainda tem uma fatia modesta de mercado, caso da China, em que apenas 2,2% dos novos veículos são eletrificados.

Mas desde que eclodiu a greve de caminhoneiros, ficou bem mais fácil fazer um pitch (apresentação) para captar investidores, brinca Mahatma: “faço isso até dormindo”. Como ele reforça, “trata-se de uma questão estratégica para o país. Diferente do petróleo, que no Brasil é um monopólio, você tem um livre comércio com a energia elétrica e é possível conseguir esse recurso de várias formas: desde um curso d’água até o sol ou mesmo do lixo, com o biometano. É uma fonte super flexível e, em último nível, até você pode produzir se tiver painéis solares. Aí não precisa depender de nenhum governo”.