Balaclava: o estúdio de design e moda que deu vida ao maior evento de criatividade do Sul do país

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Balaclava: o estúdio de design e moda que deu vida ao maior evento de criatividade do Sul do país

Do escritório em Florianópolis saíram criações para clientes dos EUA à China. A trupe ainda deu um impulso à economia criativa local com a Semana Balaclava

Do escritório em Florianópolis já saíram criações para mais de 100 clientes, dos EUA à China. E a trupe ainda deu um impulso à economia criativa local ao criar a Semana Balaclava

“O design é uma ferramenta de questionamento, de resistência dentro do sistema. É o papel que a arte tinha antigamente”, argumenta Fabrício Faustin Rezende, 29 anos, designer e um dos fundadores do Balaclava Studio, um estúdio de criação e produção de moda e design gráfico com base em Florianópolis e que se tornou referência internacional em street e skate wear.

Criado há cinco anos por Faustin e o sócio Guilherme Zimmer, o Balaclava já desenvolveu peças e produtos para mais de 100 clientes no Brasil, Estados Unidos, Ásia (China e Coreia do Sul) e países do leste europeu. Algumas criações do grupo catarinense foram encomendadas por marcas que vestem figuras como Kanye West, Snoop Dogg, KL Jay (Racionais MC’s) e Marcelo Yuka (ex-O Rappa) e já estamparam capas de revista de moda e cultura no Brasil e nos EUA.

Ser uma “peça de resistência” nunca foi problema para Faustin e Zimmer, crias do cenário cultural underground de Florianópolis e sempre envolvidos em projetos de música e design. Em 2012, decidiram criar um estúdio de criação, embora estivessem inseguros pela falta de experiência em tocar um negócio. Um dos primeiros clientes gringos ajudava com conselhos: “ele nos falava que, se a gente usasse tudo que a gente sabe e buscasse mais conhecimento, era natural que as coisas se organizassem”, conta Faustin.

E lá foram eles atrás de metodologias e algumas aulas de business coaching para agregar uma base sobre administração e gestão – Zimmer, por sinal, já tinha formação nesta área. “Todas as ferramentas gerenciais são feitas para empresas conservadoras e há muito problema para adaptar isso para empresas criativas. Queríamos ter uma empresa organizada mas não engessada, flexível a essa era de negócios”, lembra Faustin sobre o dilema inicial.

Naquele começo, o estúdio tinha um perfil mais generalista de serviços, mas a partir de 2015 foi se especializando em moda, cultura, design e economia criativa. “Somos um estúdio de experimentação, mas menos do que gostaríamos porque o mercado ainda não tem abertura para ser tão radical. Temos boleto pra pagar, mas ainda assim dá pra modificar o que está ao nosso redor”, define o fundador.

“Somos um estúdio de experimentação, mas menos do que gostaríamos porque o mercado ainda não tem abertura para ser tão radical, comenta o cofundador Fabrício Faustin.

E se o enquadramento com o mundo corporativo foi um desafio da largada, hoje não é mais um problema para uma equipe fixa de oito pessoas. “A gente foi mesclando várias metodologias de trabalho, o que veio da formação diversificada da equipe: moda, design de games, ilustração etc. Hoje já praticamente automatizamos esses processos. O método da Balaclava é: colaborar, ter foco e se divertir. E isso fica muito claro no resultado final”. A equipe tem plena liberdade com relação a horários e trabalho à distância – desde que a entrega corresponda à qualidade exigida.

Além da criação gráfica, o estúdio também coordena a produção de peças: para algumas marcas, eles desenvolvem desde a concepção da criação até a entrega da peça final: desenho, modelagem, aviamento, acabamento interno e processo de impressão. Desde que começou, o Balaclava tem conseguido dobrar o faturamento ano após ano, resultado do alto índice de manutenção de clientes e aquisição de novos contratos. “Não lembro de algum cliente sair por estar insatisfeito. Às vezes sai por um tempo mas depois volta pra coleção seguinte. A gente valoriza muito o design, por isso temos mais sucesso no desenvolvimento quando o dono é designer e também valoriza isso. Nosso posicionamento causa muita identificação”, resume Faustin.

Por que Florianópolis ainda faz sentido

Em 2018, o Balaclava deve firmar os pés em São Paulo, onde está a maior parte da clientela. A gerente de marketing, Lola Porto, foi a primeira a se mudar para a capital paulista e mantém o trabalho de forma remota, enquanto cuida do relacionamento com as empresas parceiras. Mas ninguém pensa em deixar Florianópolis – mesmo que mais de 90% dos clientes seja de fora da cidade: “acredito no potencial criativo de Santa Catarina: é o terceiro estado em economia criativa e segundo em formação de designers, tem muita gente boa aqui. A bolha em que eu vivo tem muito talento e eu percebo que a gente não deve nada pra nenhum outro lugar. Somos até mais competitivos em Florianópolis do que em São Paulo em termos de custos. Na nossa área, São Paulo valoriza muito Floripa e vice-versa. É importante estarmos nos dois lugares”.

Mas ainda há um ponto fraco na Ilha, aponta Faustin: a falta de um “senso de coletividade” capaz de impulsionar a cultura e a economia criativa local, uma ação coletiva das empresas locais para se estabelecer como um grupo reconhecido nacionalmente. “Como o Mangue Beat, por exemplo, que conseguiu criar uma cena usando também referências de arte como o Ariano Suassuna, por exemplo. Santa Catarina é muito carente nesse sentido”

Evento chega à quarta edição em 2017 com expectativa de reunir até 4 mil pessoas em workshops, painéis e shows pela cidade. Foto: Divulgação

Esse foi um dos motivadores para a criação da Semana Balaclava, um festival envolvendo palestras, debates, shows e oficinas de artes, design, moda e cultura que acontece desde 2014 em Florianópolis e se tornou segundo os organizadores o principal encontro de criatividade no sul do Brasil. A próxima edição começa na segunda, 06 de novembro e a expectativa é reunir um público de aproximadamente 4 mil pessoas nos workshops (criação de estampas, branding, ilustração para moda, quadrinhos, vídeo-reportagem etc) que acontecem ao longo da semana na Unisul, além dos painéis “papo-reto” (com convidados como João Gordo, a trupe do Hermes & Renato, o empresário Facundo Guerra, entre outros) e a feira gráfica no fim de semana, no Centro de Inovação ACATE Primavera.

A Balaclava se sente responsável por essa bandeira de estimular a economia criativa?

“Talvez nem seja nosso papel, já tentamos algumas vezes, isso deveria ser um movimento do todo. Podemos contribuir com umas faíscas. Não somos outsiders, mas precisamos constantemente provar nossa competência, pois ainda há uma certa resistência na cidade. Conquistamos muita coisa em cinco anos e a gente usa essa dificuldade como motivador”, pondera Faustin.

“É como a teoria do Rocky Balboa: quem ganha não é quem bate mais forte, é quem aguenta mais porrada”.